
Lisboa, 28 fev 2023 (Lusa) — Investigadores defendem um maior investimento nos ensaios clÃnicos da iniciativa do investigador, salientando que em Portugal representam cerca de 7% do total dos estudos realizados, um valor “muito inferior” comparativamente a outros paÃses europeus (entre 18% a 45%).
No artigo “Investigação clÃnica da iniciativa do investigador em Portugal: Identificação de problemas e propostas para melhoria”, publicado hoje na Acta Médica Portuguesa, um grupo de investigadores e médicos especialistas propõem várias medidas para apoiar os ensaios clÃnicos da iniciativa do investigador.
Apesar de estarem sujeitos à s mesmas normas de exigência, sublinham, estes ensaios clÃnicos têm habitualmente financiamento e recursos humanos muito inferiores aos da iniciativa da indústria farmacêutica, “o que os coloca em profunda desigualdade e desvantagem”.
Segundo os autores do artigo, entre os quais João Pedro Ferreira da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, Carlos Robalo Cordeiro, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra e Fausto Pinto, da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, a indústria farmacêutica apenas financia projetos nos quais terá potencial interesse direto.
“Por exemplo, ensaios clÃnicos que visem reduzir o consumo de medicamentos ou a implantação de dispositivos médicos, ou que comparem estratégias ou intervenções não farmacológicas (prevenção primária e modificação de estilo de vida) dificilmente obterão financiamento, pois podem diminuir o lucro potencial da indústria farmacêutica. Todavia, são obviamente estudos fulcrais para as populações e para os sistemas de saúde”, declaram.
Por isso, defendem, o financiamento público é “absolutamente essencial” na realização de ensaios clÃnicos independentes da indústria, porque são de “enorme importância” ao usarem uma abordagem centrada nos doentes sem qualquer objetivo de lucro.
Mas, apesar da sua elevada relevância, enfrentam diversas dificuldades devido à falta de recursos, à s restrições financeiras, à falta de infraestruturas de suporte locais, à inadequada formação em investigação clÃnica e translacional e à complexa e estrita regulamentação.
“Igualmente importantes e sujeitos ao mesmo tipo de bloqueios estão os estudos multicêntricos epidemiológicos e de ‘coorte’ [a única forma de obter uma caracterização representativa da população portuguesa] e os ensaios clÃnicos pragmáticos que visam a otimização de estratégias ou de recursos que já podem estar a ser usados na rotina clÃnica”, acrescentam.
Para contornar os problemas, os investigadores propõem um modelo de financiamento integrado com abertura de um concurso anual dedicado apenas à investigação clÃnica, favorecendo projetos multicêntricos da iniciativa do investigador que visem mudar e melhorar a prática clÃnica.
Sugerem que a Agência de Investigação ClÃnica e Inovação Biomédica em conjunto com a Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT)/Ministério da Saúde anunciem uma ‘call’ anual dedicada à investigação clÃnica com um orçamento próprio, idealmente entre 20 a 40.000.000 euros por ano.
O número de projetos a financiar deveria ser limitado entre cinco a 10 por ano, adiantam, defendendo que a ‘call’ de Oncologia deveria ser separada das restantes áreas da Medicina, atribuindo-se, por exemplo, 10% da verba alocada a projetos da área oncológica e os restantes 90% à s outras áreas.
“Esta separação é importante, pois a Oncologia é, de longe, a área da Medicina com maior investimento em ensaios clÃnicos e se não for colocado um limite de verba alocada à Oncologia, a ‘call’ arrisca-se a ser ‘onco-cêntrica’ e a não dar oportunidade a outras áreas da Medicina”, alertam.
Os vencedores de cada projeto poderiam selecionar elementos cujo salário seria parcialmente pago com verbas próprias, a quem seria atribuÃda redução correspondente do tempo de trabalho hospitalar.
A FCT financia anualmente projetos de investigação em todas as áreas cientÃficas, limitando o valor máximo a 250.000 euros por projeto, lembram os investigadores, elucidando que, em Portugal, por cada um euro investido em ensaios clÃnicos se obtém em média um retorno de 1,99 euros, praticamente 200%.
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