
Luanda, 11 out 2022 (Lusa) – A ativista social angolana e promotora da marcha contra a imposição de penteados nas escolas, Arminda Ernesto, defendeu hoje que é preciso “desmistificar” o problema do uso de cabelo crespo e promete continuar a lutar contra o “racismo capilar”.
Arminda Milena Ernesto, em declarações à agência Lusa, manifestou a sua indignação sobre os regulamentos internos de algumas escolas sobre o uso de cortes de cabelo, que associou a uma imposição de valores associada à colonização.
No sábado passado, organizou um protesto para chamar a atenção da sociedade angolana, mas a marcha foi travada pela polÃcia, apesar de os promotores se terem concentrado no local por terem tido pouco tempo para desmobilizar os participantes.
Segundo Arminda Milena Ernesto, o problema é antigo, mas este ano um episódio com uma criança de 10 anos amplamente divulgado nas redes sociais despertou os cidadãos para o problema.
“No ano passado já havÃamos saÃdo à s ruas por causa das injustiças que as escolas haviam cometido ao enxotar alunos por causa de cabelos compridos, sem qualquer explicação. SaÃmos à s ruas sem qualquer resposta positiva do Ministério da Educação e esse ano acontece que o menino Hugo, de 10 anos, foi expulso da turma por possuir o cabelo comprido, tendo a escola alegado que era por questões de higiene”, referiu.
A falta de igualdade no tratamento destes casos entre alunos de pele escura e mais clara, prosseguiu a ativista, professora de profissão, é o que mais inquieta a comunidade.
“O que não se entende é como é que numa turma de pretos e brancos, o branco permanece na turma e preto vai para fora, alegando-se que tem que cortar o cabelo. Não é só o menino Hugo, houve também um menino de 05 anos, Hazael, que foi expulso da sala por ter o cabelo comprido, e a menina Leonilde, porque ela fez um penteado e o professor disse que ela tinha que pentear o cabelo”, contou.
Para a ativista, há falta de diálogo, embora admita que os regulamentos das escolas devem ser cumpridos.
“Eu acho que a única coisa que falta aà é o diálogo. Eu entendo que toda a escola tem um regulamento que deve ser aceite. Quando se inscreve o filho numa escola depara-se com um regulamento que se tem de cumprir”, frisou.
Arminda Milena Ernesto considera que o problema decorre da colonização, mas defende que “essa imposição de valores tem que terminar já”.
“O colono implementou na cabeça do negro que, para ficar mais bonito tem que cortar o cabelo, isso é uma coisa que tem que se desmistificar. Essa imposição de valores tem que terminar já”, defendeu.
“Nós somos diferentes dos brancos, que têm o cabelo liso e podem fazer puxinho, o nosso cabelo é a nossa identidade, é a nossa cultura, e ele serve para fazer variados penteados”, reforçou.
Apesar do episódio de sábado, em que dezenas de ativistas foram detidos pela polÃcia, o objetivo é prosseguir com as reivindicações e sensibilização para o problema, com o envolvimento de outros setores da sociedade, para “lutar contra esse tipo de racismo capilar”.
A promotora da marcha disse que a declaração emitida pelo Ministério da Educação face à situação não é clara, mas passa a ideia de dar “oportunidade de qualquer aluno entrar para a escola de cabelo comprido sem qualquer problema”.
De acordo com a ativista, o problema é de grande dimensão e afeta escolas do Estado e privadas, vindo as reclamações de vários estabelecimentos escolares de todo o paÃs.
“Há pais que reclamam os seus direitos, porque conhecem a lei, mas há outros que não dominam a lei e não sabem que há igualdade de direitos”, referiu Arminda Milena Ernesto, reafirmando a necessidade de continuar a lutar “enquanto estudantes, enquanto ativistas sociais”.
“Nesse momento estamos a aguardar, mas se os casos continuarem vamos sair novamente à s ruas, vamos reagendar nova marcha”, garantiu.
Numa circular datada de 28 de setembro, a ministra da Educação, LuÃsa Grilo, orientou as escolas a criarem “um ambiente harmonioso de respeito à diferença e nas diversas formas em que o cabelo de cada aluno se pode apresentar sem, contudo, subverter o código de conduta e a disciplina escolar”.
O documento sublinha ainda que o Sistema de Educação e Ensino se rege de princÃpios da igualdade e da proteção da criança, previstos na Constituição da República, bem como pelo princÃpio da universalidade, previsto na Lei de Bases do Sistema de Educação e Ensino “promovendo assim o combate contra todo o tipo de discriminação por razões da ascendência do indivÃduo, sexo, raça, etnia, cor, deficiência, lÃngua local de nascimento, religião, convicções polÃticas, ideológicas ou filosóficas”.
A circular refere ainda que os gestores escolares devem obediência à s leis e devem assegurar a materialização dos princÃpios gerais que regem o Sistema de Educação e promover “estratégias de diálogo permanente com os membros da comunidade escolar no sentido de se estabelecerem regras de convivência escolar que assegurem a ampla proteção da criança contra todo o tipo de discriminação”.
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