
Macau, China, 07 jul 2022 (Lusa) — A exclusão do campo pró-democracia das eleições parlamentares, há um ano, deixou Macau “sem válvula de escape” para a crescente insatisfação da população durante o atual surto de covid-19, disse um dos candidatos desqualificados.
Em 09 de julho de 2021, a comissão que gere as eleições para a Assembleia Legislativa (AL) excluiu cinco listas e 21 candidatos, 15 dos quais pró-democracia, por “não defenderem a Lei Básica da RAEM [Região Administrativa Especial de Macau]” e não serem “fiéis à RAEM”.
A decisão afastou o campo pró-democracia, que detinha quatro lugares na AL, deixando o parlamento com apenas duas vozes mais crÃticas do governo, incluindo o português José Pereira Coutinho.
“A missão de fiscalização que a Assembleia Legislativa deveria ter desapareceu por completo”, disse à Lusa Leon Ieong, professor de polÃtica na Universidade de Macau.
A AL “está agora a desempenhar o papel de uma oposição leal”, contrapôs Sonny Lo Shiu-Hing.
O comentador polÃtico disse à Lusa que os deputados pró-democracia “eram incisivos em identificar assuntos e polÃticos”, mas garantiu que “ainda é possÃvel ouvir diferentes vozes” no parlamento.
Dando como exemplo a nova lei que regula a indústria do jogo, Sonny Lo defendeu que “os deputados discutiram a proposta de forma racional e aprofundada e houve algumas crÃticas do governo”.
Um dos candidatos pró-democracia excluÃdos, Scott Chiang Meng Hin, discorda: “A lei dos casinos foi aprovada num perÃodo relativamente curto, com pouca discussão e enormes consequências. Não vejo como é que o parlamento teve qualquer papel numa decisão marcante para Macau”.
O ativista disse à Lusa que continua a haver deputados mais crÃticos na AL, mas que “o ambiente mudou por completo e o trabalho deles tornou-se mais difÃcil”.
“Os atuais deputados tendem naturalmente a ser mais cautelosos do que anteriormente nas suas ações e comentários em público, porque se forem abertamente crÃticos, podem arriscar uma desqualificação”, admitiu Sonny Lo.
Vários deputados contactados pela Lusa recusaram-se a comentar o impacto da exclusão do campo pró-democracia.
A cautela é ainda mais necessária para “potenciais futuros candidatos ou candidatos desqualificados”, acrescentou Sonny Lo.
Também Leon Ieong disse acreditar que alguns dos candidatos excluÃdos em 2021 possam competir em futuras eleições, com a “pré-condição de demonstrarem a sua lealdade”.
“Segundo a mentalidade habitual da polÃtica chinesa, os termos ‘inimigo’ e ‘amigo” são relativos e alteráveis”, explicou o académico.
Algo que não se irá alterar, disse Leon, é a certeza de que, “tal como no caso de Hong Kong, Macau tem agora censura polÃtica”.
Além disso, realçou o académico, a ausência de uma verdadeira oposição “vai também criar dificuldades extras para o Governo receber as opiniões da sociedade”.
“Os 30 anos do movimento pró-democracia em Macau foram um fracasso absoluto, mas pelo menos éramos bastante bons como uma válvula de escape para as preocupações das pessoas”, disse Scott Chiang.
Uma ausência que se agudizou durante o atual surto de covid-19, acrescentou o ativista. “As pessoas sentem-se muito frustradas, estão no limite da sanidade”, disse.
Apesar da proibição de manifestações devido à pandemia, na semana passada houve um protesto de trabalhadores da construção civil, impedidos de regressar a casa, na cidade vizinha de Zhuhai.
“É impossÃvel parar um protesto se as pessoas estiverem suficientemente zangadas. Com o tempo, haverá outras formas de oposição. Nesse sentido, estou otimista”, disse Scott.
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