
Belmonte, Castelo Branco, 29 mai 2022 (Lusa) – O ministro da Cultura, Pedro Adão e Silva, defendeu hoje que se deve continuar a preservar o pluralismo religioso para ajudar a defender a democracia em tempos de crise e considerou que Portugal pode dar um exemplo ao mundo.
“Um dos ativos que a democracia portuguesa tem é precisamente essa coexistência de uma história de várias religiões. Isso tem um significado particular no momento em que vivemos, num momento de crise democrática um pouco por toda a Europa e em que a força contrastante da democracia portuguesa está precisamente nesse legado, nessa história de pluralismo, tolerância e de abertura. Isso ajuda a proteger-nos e a projetar o futuro e, por isso, é que tem um grande significado cultural”, afirmou.
O governante falava à margem da “Judaica – Mostra de Cinema e Cultura”, evento que se realizou em Belmonte, vila do distrito de Castelo Branco que conta com uma comunidade judaica ativa e que sobreviveu em segredo durante décadas.
No encerramento da sessão, que contou com ações ligadas à preservação e divulgação da memória e da cultura judaica, Pedro Adão e Silva lembrou a memória dos judeus no mundo, e em particular a história dos judeus de Belmonte, para concluir que este “exemplo de resistência” tem um grande significado “para a defesa das liberdades individuais, de ontem e de hoje”.
“Contar o que aqui [em Belmonte] aconteceu é um exercÃcio de respeito pela resistência inabalável de uma cultura, mesmo nas condições mais inóspitas, mas é também – é acima de tudo – trazer para o presente os valores da convivência pacÃfica entre culturas e crenças para que a perseguição religiosa nunca mais tenha lugar entre nós”, afirmou.
O ministro salientou que a “democratização” tem de ser um dos “eixos fundamentais das polÃticas culturais” e detalhou que, numa dimensão mais imediata, “isso significa preservar através da ação cultural valores intrÃnsecos à vivência democrática”, designadamente o da tolerância religiosa, que considerou ser o “fundamento de toda a tolerância democrática”.
“No momento atual, no momento em que vivemos, este é um sinal importante que podemos dar ao mundo, nós portugueses”, acrescentou, frisando a importância das ações como aquela em que hoje participou e que preservam a memória.
No âmbito da visita, Pedro Adão e Silva também inaugurou uma exposição e uma escultura do artista plástico Ari Erom, que ficam patentes no Museu Judaico de Belmonte, espaço onde também esteve.
Seguiu-se a apresentação da reedição do livro “Inscrições Hebraicas em Portugal”, lançado em 1923 por Samuel Schwarz, engenheiro de origem judia que descobriu a existência da comunidade judaica de Belmonte e que ajudou a dar-se a conhecer e a preservar.
A nova edição do livro foi uma iniciativa de João Schwarz (neto de Samuel Schwarz) que contou com o apoio da Câmara de Belmonte e que, além da edição original, integra ainda novos capÃtulos sobre o que se foi descobrindo desde então, da autoria de José Alberto Tavim, Ângela Benoliel Coutinho e Meritxell Blasco Orellana. Â
Foi ainda assinado um protocolo de cedência do espólio de Samuel Schwarz ao Museu Judaico, sendo que parte já está exposto no espaço.
Entre as peças doadas estão, por exemplo, a carteira da Ordem dos Engenheiros datada de 1940, o cartão do centro de imprensa estrangeiro em Portugal, o passaporte português, uma máquina fotográfica, uma máquina fotográfica de bolso e uma máquina de filmar, entre outros artigos que pertenceram a Samuel Schwarz.
Após a assinatura do documento, o presidente da Câmara de Belmonte, António Dias Rocha, agradeceu ao neto de Samuel Schwarz e garantiu que as peças serão preservadas o melhor possÃvel.
“Belmonte foi, continua e continuará a ser também a terra de Samuel Schwarz”, disse.
O autarca reiterou ainda que “Belmonte foi e é terra de tolerância, onde vivem e convivem várias etnias e religiões que se respeitam pelas suas diferenças”.
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