
Matosinhos, Porto, 21 mai 2022 (Lusa) — Nas águas portuárias de Matosinhos, o veÃculo autónomo de superfÃcie ORCA, desenvolvido pelo CEiiA — Centro de Engenharia e Desenvolvimento, substitui-se aos meios humanos, levando a cabo uma das missões para a qual foi concebido: a caracterização do solo marÃtimo.
Na marina de Leixões, em Leça da Palmeira, concelho de Matosinhos, no distrito do Porto, o veÃculo autónomo de superfÃcie, que os investigadores do CEiiA apelidaram de ORCA, monitoriza as profundezas das águas, substituindo um trabalho para o qual eram destacados meios humanos.
Ziguezagueando pelas águas, a embarcação que pesa 450 quilogramas vai repetindo um movimento semelhante ao de cortar a relva, enviando, em tempo real, a informação que recolhe para a DORY, nomenclatura atribuÃda ao sistema que em terra acompanha toda a ação.
A solução começou a ser pensada e desenvolvida há cerca de cinco anos. À época o propósito era simples e só um: “usar a robótica para monitorizar o oceano”, disse à Lusa Tiago Rebelo, diretor para o Espaço e Engenharia Oceânica do CEiiA.
Se inicialmente os investigadores se debruçaram no desenvolvimento da estrutura da embarcação, rápido focaram a atenção no “cérebro”, elemento que atribui “inteligência, controlo, navegação e autonomia” ao veÃculo.
Desenhado para operar em águas interiores, bem como em zonas costeiras e zonas protegidas, o veÃculo tem “múltiplos propósitos” e responde a “diferentes desafios”, servindo para monitorização ambiental, cartografia oceânica, segurança e vigilância.
Pelas águas de Leixões, a missão do ORCA por estes dias é a de fazer a batimetria e caracterização do solo marinho, mas as finalidades deste veÃculo não se esgotam na cartografia oceânica.
O seu “cérebro”, que carrega até 100 quilogramas de sensores, pode ser incumbido de monitorizar a qualidade da água, dos ecossistemas, das alterações climáticas, mas também de proteger zonas de fronteiras ou de águas, e infraestruturas como barragens, oleodutos e gasodutos.
“O operador define a missão, o que é que o veÃculo vai fazer, por onde tem de passar, o que tem de recolher e depois o veÃculo faz toda essa missão de forma autónoma”, esclareceu Tiago Rebelo.
Através de sensores e de uma câmara de 360 graus incorporada no veÃculo, o operador mantém, em cada missão, o controlo das operações, que podem durar entre 12 e 24 horas, mediante o número de baterias que o ORCA carrega consigo.
Ainda que o CEiiA não pretenda ser “um estaleiro para o crescimento destas embarcações”, o veÃculo autónomo de superfÃcie está “comercialmente disponÃvel”, demorando o centro entre dois e três meses a fazer a sua montagem e entrega.
Enquanto decorre o processo de comercialização do ORCA, os investigadores do centro sediado em Matosinhos focam-se no que realmente “sabem fazer”: “engenharia e desenvolvimento aplicado”, sendo o objetivo agora “escalar a solução”.
“Criamos uma capacidade que nos permite passar deste tipo de veÃculos autónomos de superfÃcie para veÃculos em profundidade e embarcações maiores para explorar mar aberto”, adiantou Tiago Rebelo, ilustrando que essa capacidade também se faz notar no crescimento da equipa, que passou de cinco para cerca de 77 engenheiros.
Ainda que os submarinos autónomos e as embarcações de superfÃcie para monitorizar o mar aberto possam passar de protótipos a produtos, à semelhança do que aconteceu com o ORCA, persiste um desafio tecnológico: “a autonomia total do veÃculo”.
“O veÃculo ter capacidade de decidir face ao que está a acontecer no seu ecossistema será sempre um desafio. Neste momento estamos num nÃvel de tomada de decisão intermédio. O veÃculo deteta e avisa, mas não decide por si. O próximo passo é alertar através de sinais sonoros, luminosos ou, no limite, até parar, e a seguir é a tomada de decisão total”, referiu.
A par dos desafios tecnológicos, persistem também desafios ao nÃvel da legislação, que ainda contém “vazios”, destacou Tiago Rebelo, lembrando que ainda não existe uma normativa europeia e que a nÃvel nacional a mesma está dependente das autoridades marÃtimas e portuárias.
“Ainda existe esta insuficiência de conhecimento na qual é preciso trabalhar”, referiu.
Depois da caracterização do solo marÃtimo das águas de Leixões, o veÃculo 100% elétrico vai monitorizar as águas do rio Douro, entre o Porto e Barca d’Alva, numa colaboração com a Administração dos Portos do Douro, Leixões e Viana do Castelo (APDL).
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SPYC // JAP
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