
Pequim, 20 mai 2022 (Lusa) — Os internautas chineses estão a desenvolver formas criativas de contornar o sistema de censura de conteúdo ‘online’ da China, à medida que cresce a frustração com o extremar das medidas de prevenção epidémica do paÃs.
O sarcasmo, palavras-chave ou referências ambÃguas têm sido usados para denunciar o impacto da estratégia ‘zero covid’, assumida como um triunfo polÃtico pelo secretário-geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping.
No Weibo, alguns utilizadores desabafaram de forma sarcástica sobre o quão fantástica a China é, em resposta a um tópico promovido pela rede social sobre violações dos Direitos Humanos nos Estados Unidos.
Outros postaram imagens do filme “La La Land: Melodia do Amor”, em referência à s declarações de um porta-voz do Governo sobre o quão bem o paÃs está a gerir a pandemia.
Numa outra crÃtica velada ao regime, os internautas uniram-se para colocar a obra de ficção de George Orwell “1984” no topo da classificação do portal Douban, o equivalente ao portal IMDB na China, mas que serve também para classificar livros.
Aquele romance, um dos mais influentes do século XX, retrata um regime totalitário e opressivo, onde a vigilância é constante.
Os censores tiveram mesmo de banir referências ao primeiro verso do hino nacional do paÃs – “Ergam-se, aqueles que se recusam a ser escravos” -, após ter sido compartilhado em conjunto com imagens e crÃticas a denunciar as medidas de confinamento altamente restritivas do paÃs.
A China condena frequentemente à prisão ativistas ou dissidentes por “perturbação da ordem pública” ou “subversão do poder do Estado”.
No entanto, crÃticas abertas ao regime têm-se multiplicado numa altura em que o novo coronavÃrus volta a paralisar o paÃs. Imagens de suicÃdios, pessoas a passar fome, a enlouquecer ou a morrer por causas como apendicite aguda, devido à falta de acesso a tratamento hospitalar, multiplicam-se nas redes sociais, apesar dos esforços do regime para censurar crÃticas.
É difÃcil medir o descontentamento popular no paÃs, devido à ausência de estudos de opinião ou imprensa livre, mas vários chineses, sobretudo jovens urbanos e educados, passaram a ser mais vocais nas crÃticas à estratégia atual.
A agência Lusa confirmou que, na última semana, pelo menos duas universidades da capital chinesa foram palco de protestos pelos estudantes – Universidade de Pequim (‘Beida’) e Universidade de Estudos Estrangeiros de Pequim (BISU) -, contra a imposição de medidas de confinamento nos ‘campus’.
“Estamos cansados de polÃticas idiotas”, diz Yang, de 25 anos, e residente em Pequim, à Lusa. “Fui ensinada, desde a escola primária, que este paÃs pertence ao povo”, aponta. “Mas somos meros escravos”.
Pequim está a tentar conter a propagação do vÃrus através do isolamento de bairros e rondas quase diárias de testes em massa. A capital chinesa decretou teletrabalho e encerrou restaurantes, ginásios e outros estabelecimentos.
Xangai, a “capital” financeira da China, com 26 milhões de pessoas, está sob confinamento total há sete semanas, num esforço desesperado para suprimir o vÃrus.
“As cenas de violência, regras sem nexo, estão a levar muita gente a querer ir-se embora, e não são só os jovens, mas também pessoas na casa dos 50 e 60, que me dizem: nunca experienciei isto em Xangai”, diz um empresário português ali radicado.
As medidas afetaram também importantes cidades industriais como Changchun e Cantão.
Xu Jianguo, professor de Economia na Universidade de Pequim, estimou que o prejuÃzo causado pelas interrupções na atividade económica ascende a 18 biliões de yuans (2,54 biliões de euros).
“A gravidade dos surtos este ano é mais de 10 vezes superior à de 2020 (…) em termos da população afetada e de custo económico”, apontou, num seminário realizado ‘online’, na semana passada.
Xu considerou que é questionável se a China vai conseguir alcançar a meta de crescimento económico oficial de “cerca de 5,5%”, estabelecida para este ano, ou mesmo igualar o crescimento de 2,3%, registado em 2020.
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