
Lisboa, 23 mar 2022 (Lusa) – O presidente da Assembleia da República defendeu hoje que é necessário atrair mais jovens para uma “participação convencional” na polÃtica e no sistema partidário, de forma a que as suas preocupações sejam ouvidas e representadas.
Na abertura solene das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril de 1974, no Pátio da Galé, em Lisboa, Eduardo Ferro Rodrigues – que disse já estar na “fase dos descontos” da sua função como presidente do parlamento – centrou parte da sua intervenção numa reflexão sobre o futuro.
“Um futuro de esperança numa vida melhor para todos, no muito que há ainda por cumprir, numa democracia com mais qualidade”, afirmou, defendendo que esse desafio se coloca a todos e, “em particular, aos mais jovens”.
O presidente do parlamento recusou a ideia de que os jovens de hoje “sejam politicamente menos participativos ou mais passivos do que as gerações anteriores”, mas reconheceu que a sua voz “nem sempre é suficientemente audÃvel no espaço público”.
“Os jovens participam e interessam-se por polÃtica, tanto ou mais do que a restante população. É uma participação menos institucional, de cariz mais cÃvico, que privilegia, por exemplo, a recolha de fundos para uma atividade social, cÃvica ou polÃtica, o boicote a certos produtos por razões polÃticas ou ambientais, manifestações, a assinatura de petições, ou a participação polÃtica nas redes sociais”, elencou.
No entanto, o presidente do parlamento defendeu que “uma participação mais convencional, ou institucional, dos jovens, orientada para o sistema partidário, é fundamental”, a começar pelas eleições.
“Precisamente para que as suas preocupações estejam mais presentes e sejam mais representadas na vida polÃtica nacional e na sua agenda, nomeadamente nos partidos, no Parlamento ou no Governo”, defendeu, alertando que “sem parlamento não há democracia, sem partidos livres não há parlamento”.
Para tal, Ferro Rodrigues apontou dois desafios aos responsáveis polÃticos: por um lado, “um esforço criativo para se encontrarem formas de estimular esta participação convencional dos mais jovens”.
“Através de uma maior sintonia dos representantes polÃticos e dos governantes com as preocupações dos mais jovens e as suas prioridades”, sugeriu em segundo lugar, dizendo ser necessário encontrar “inspiração nas propostas da sociedade civil, na academia ou nas experiências dos vários paÃses que se deparam com os mesmos desafios”.
O presidente do parlamento alertou que “o futuro de Abril não se faz sem os jovens, cujo tÃpico inconformismo, agora como então, é fundamental para a vida nacional”.
Ferro Rodrigues saudou o marco simbólico do arranque das comemorações dos 50 anos do 25 de Abril – em que a democracia suplanta a duração da ditadura -, considerando que Portugal deixa para trás “um histórico défice, ajustando contas com os dias do passado ditatorial”.
“Em 74, tinha 24 anos; agora tenho 72. Quem diz que a ditadura durou pouco esquece que os jovens de Abril são agora os avós de 2022. E só agora podemos comemorar este dia”, disse, recordando outra efeméride que se assinala na quinta-feira, os 60 anos da crise académica de 1962.
Sobre o passado, Ferro Rodrigues disse ser necessário não esquecer os que “resistiram, lutaram e morreram” e, quanto ao presente, enalteceu os muitos indicadores de desenvolvimento do Portugal democrático, “da educação à saúde, passando pelos direitos das mulheres e dos trabalhadores, até à s condições de saneamento e infraestruturas”.
“O caminho positivo que fizemos neste combate à s desigualdades, essencial para cumprirmos o nosso potencial de crescimento, não pode, no entanto, contentar-nos, devendo antes estimular-nos a fazer mais e melhor, pois ainda somos um dos paÃses com mais desigualdade na União Europeia”, alertou.
Na sua intervenção, Ferro Rodrigues referiu-se ainda ao ambiente de “grande incerteza mundial” devido à pandemia de covid-19 e do ataque da Rússia à Ucrânia.
“Não adiro particularmente à ideia da crise virtuosa, vista sobretudo como oportunidade, embora também o possa ser. Antes de mais, estas crises configuram, para tantas pessoas, momentos dificÃlimos de luta pela sobrevivência. Não obstante, elas podem trazer ao de cima o melhor de nós enquanto seres polÃticos e sociais”, referiu.
Como exemplos, a segunda figura do Estado destacou a “entrega incondicional dos profissionais de saúde na crise pandémica” e o “pronto e generoso apoio aos refugiados da Ucrânia”.
“São incontáveis os casos de entreajuda que nos devem inspirar a fazer melhor no futuro. E escolho enfatizar isto porque considero que a solidariedade é um dos projetos mais ambiciosos de Abril, por onde passa muito do chão comum que nos une enquanto portugueses, europeus e cidadãos do mundo”, sublinhou, numa cerimónia que conta também com intervenções do primeiro-ministro e do Presidente da República.
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