
Aveiro, 25 jan 2022 (Lusa) — O dirigente socialista Pedro Nuno Santos fez hoje um ataque aos conceitos de liberdade e de meritocracia da direita, contrapondo com os valores da liberdade efetiva e Estado social, num discurso em que esqueceu BE e PCP.
Pedro Nuno Santos, ministro das Infraestruturas e da Habitação, discursou imediatamente antes do secretário-geral do PS, António Costa, em Aveiro, naquele que foi até agora o maior comÃcio dos socialistas.
Na sua intervenção, com cerca de 16 minutos, Pedro Nuno Santos, que é cabeça de lista por Aveiro – e apontado como potencial sucessor de António Costa na liderança do PS -, levantou por várias vezes a plateia explorando uma lógica dualista entre os defensores do “individualismo e do salve-se quem puder” e os socialistas, corrente que caracterizou como defensora do sentido de comunidade e do conceito de liberdade efetiva.
Pedro Nuno Santos atirou ao PSD, à Iniciativa Liberal e ao CDS-PP, mas, ao longo da sua intervenção, não se ouviu uma única referência aos partidos à esquerda do PS, nem à s circunstâncias do chumbo do Orçamento para 2022, que esteve na origem da atual crise polÃtica.
O discurso foi ideológico do princÃpio até ao fim e baseado na tese de um mundo bipolar entre capitalistas e socialistas.
O antigo lÃder da JS começou por criticar a proposta de sistema misto de Segurança Social admitido pelo presidente do PSD, Rui Rio, sustentando a tese de que essa mudança colocaria parte das contribuições para capitalização na bolsa e, além disso, provocaria “um rombo” nas contas públicas, porque obrigaria o Orçamento do Estado a fazer transferências nas primeiras décadas de transição entre sistemas.
A seguir, criticou a proposta de cheque ensino do CDS, dizendo que provocaria imediatamente um aumento dos preços praticados pelos melhores colégios, que “continuariam reservados aos mais ricos”.
“TerÃamos colégios privados assim-assim para a classe média e continuarÃamos a ter os melhores só para os mais ricos, com a diferença que o Estado teria menos dinheiro para a escola pública e passaria a financiar o negócio privado da educação”, disse.
A seguir, visou a Iniciativa Liberal, que disse pretender convencer “alguns jovens qualificados a defenderem o desmantelamento do Estado” e que advoga uma taxa única de IRS — uma reforma fiscal “que aumentaria a desigualdade”, advogou Pedro Nuno.
“Camaradas, o que atravessa todas estas propostas da direita portuguesa é uma visão profundamente individualista da sociedade, a ideia que as pessoas apenas se interessam pelas suas vidas, a ideia de uma sociedade cada um por si sem querer saber o que acontece aos outros. Por isso, a direita dá tanta centralidade ao mercado e nunca fala em desigualdade porque acredita numa sociedade de vencedores e de vencidos”, apontou.
Em contraponto, o PS, de acordo com a lógica de Pedro Nuno Santos, “é a casa comum que acredita que todos os cidadãos fazem parte de uma comunidade – uma comunidade que nos confere direitos e deveres”.
“Quando a direita incute os valores da competição devemos proteger os valores da cooperação.  A verdade é que os socialistas levam a liberdade mais a sério, são mais exigentes na sua concretização. Para nós, a liberdade que conta é a liberdade efetiva e igual para todos e não só para alguns”, declarou, levantando uma vez mais a plateia.
Mas Pedro Nuno Santos ainda foi mais longe: “liberdade é podermos ter uma formação de qualidade, sejamos nós filhos de patrão ou de um trabalhador. E essa liberdade só a escola pública nos pode dar”.
Na parte final, o “numero um” por Aveiro do PS atacou o conceito de meritocracia inerente à s correntes liberais, partindo do exemplo das operárias que cosem sapatos nas fábricas de São da Madeira ou de Santa Maria da Feira.
“Aquelas mulheres que cosem as gáspeas, sempre a olhar para agulha e para a linha, não têm mérito? Os técnicos da manutenção da CP, que mantêm comboios com 50 anos em circulação, não têm mérito?  As técnicas sociais dos lares e das creches não têm mérito? Só seremos um paÃs desenvolvido se respeitarmos todos os que trabalham. A nossa casa comum é o Estado social”, concluiu.
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