
Redação, 02 dez 2021 (Lusa) — Um total de 274 milhões de pessoas em todo o mundo irão precisar de algum tipo de ajuda humanitária em 2022, um aumento de 17% em relação a este ano, alertou hoje a ONU.
A chamada de atenção consta no relatório Panorama Humanitário Mundial 2022 (GHO 2022, na sigla em inglês), apresentado hoje a partir de várias capitais do mundo como Genebra, Bruxelas ou Washington.
O documento aponta também que serão necessários 41 mil milhões de dólares (cerca de 36 mil milhões de euros) para prestar ajuda, no decorrer do próximo ano, a 183 milhões de pessoas que necessitam de uma assistência urgente em 63 paÃses, pessoas essas que serão abrangidas pelos 37 planos de resposta humanitária conduzidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) e por organizações parceiras.
“Em 2022, um total de 274 milhões de pessoas irão precisar de assistência humanitária e proteção – um aumento significativo em relação aos 235 milhões de há um ano, que já era o número mais alto em décadas”, lê-se no documento.
O relatório especifica que até à data, em 2021, os doadores internacionais canalizaram mais de 17 mil milhões de dólares (quase 15 mil milhões de euros) para projetos incluÃdos no GHO, mas, alerta a organização internacional liderada pelo secretário-geral António Guterres, “o financiamento permanece inferior a metade do valor solicitado pela ONU e organizações parceiras”.
O documento traça um cenário preocupante sobre as necessidades provocadas por conflitos polÃticos e armados, deslocações internas, desastres naturais e mudanças climáticas, bem como pela pandemia da doença covid-19 que “não dá sinais de enfraquecimento” e já matou “pelo menos 1,8 milhões de pessoas em todos os paÃses abrangidos pelo GHO”, situação potenciada pelo surgimento de novas variantes do coronavÃrus e pela falta de vacinas.
“A crise climática está a atingir primeiro e de forma mais grave as pessoas mais vulneráveis do mundo. Os conflitos prolongados continuam e a instabilidade agravou-se em várias partes do mundo, nomeadamente na Etiópia, Myanmar (antiga Birmânia) e Afeganistão. A pandemia não acabou e os paÃses pobres estão privados de vacinas. O meu objetivo é que este apelo global possa contribuir de alguma forma para restaurar uma réstia de esperança em milhões de pessoas que dela necessitam desesperadamente”, afirma o responsável para os Assuntos Humanitários da ONU, Martin Griffiths, sobre o relatório.
Entre os vários paÃses referenciados no GHO 2022, a ONU destaca os casos do Afeganistão, do Iémen, da SÃria, de Myanmar ou do Haiti, onde “43% da população precisa de ajuda humanitária”.
Por exemplo, de acordo com o relatório, no Afeganistão, paÃs sob controlo dos talibãs desde agosto passado, mais de 24 milhões de pessoas necessitam de ajuda, no que será uma “assistência para salvar vidas e para evitar a catástrofe”.
“Isto representa um aumento dramático das necessidades”, realça o relatório, precisando que este panorama está a ser impulsionado por uma combinação de fatores: “Conflitos, covid-19, tumultos polÃticos, choques económicos recorrentes e a pior seca dos últimos 27 anos”.
Já no Iémen, “apesar dos esforços contÃnuos para mitigar o risco de fome”, o documento avisa que “a insegurança alimentar continua a ser um desafio crucial”, uma vez que é uma situação que afeta 16,2 milhões de pessoas no paÃs.
“Mesmo com os atuais nÃveis de assistência humanitária, 40% da população tem uma alimentação inadequada”, refere o GHO 2022, destacando ainda um passo significativo: “No Iémen, os parceiros na área da saúde realizaram mais de 10 milhões de consultas médicas”.
No caso de Myanmar, o relatório estima que 14,4 milhões de pessoas precisam de assistência humanitária, lembrando que o paÃs do Sudeste Asiático enfrenta uma crise polÃtica, de direitos humanos e humanitária sem precedentes, “com necessidades que aumentaram dramaticamente desde a tomada do poder pelos militares [em fevereiro passado] e por uma grave terceira vaga da doença covid-19”.
O relatório GHO 2022 enumera ainda outros indicadores preocupantes do atual cenário da ajuda humanitária.
“Mais de um por cento da população mundial está deslocada. A pobreza extrema está de novo a aumentar. Na maioria das crises, as mulheres e raparigas são as que mais sofrem, uma vez que as desigualdades de género e os riscos de proteção são agravados. A fome continua a ser uma perspetiva aterradora para 45 milhões de pessoas em 43 paÃses”, denuncia o documento, avançando que perante tal panorama, as organizações de ajuda humanitária intensificaram, em 2021, os esforços para tentar conter as piores consequências.
“Através de projetos conduzidos pela ONU, organizações não-governamentais (ONG), Governos e setor privado, 107 milhões de pessoas foram abrangidas, 70% da meta traçada”, prossegue o documento.
No campo especÃfico da luta contra a fome — uma meta global que está “perigosamente mal encaminhada” segundo outro relatório internacional recentemente divulgado — o GHO 2022 anuncia que cerca de 120 organizações da sociedade civil (das quais cerca de 100 com sede em paÃses duramente atingidos pelo flagelo) lançam hoje uma carta conjunta dirigida aos lÃderes mundiais.
Na missiva, as organizações exortam os lÃderes a financiarem, em pleno, a resposta necessária para prevenir a fome a nÃvel mundial e para enfrentar as principais ameaças que conduzem à insegurança alimentar: conflitos, crise climática, covid-19 e choques económicos.
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