
Glasgow, Reino Unido, 08 nov 2021 (Lusa) – Representantes de alguns dos paÃses com menos dinheiro para enfrentar os efeitos das alterações climáticas queixaram-se hoje de que os compromissos dos lÃderes mundiais não estão a ter efeito nas negociações concretas da cimeira do clima das Nações Unidas (COP26).
Num dia em que o financiamento para a adaptação dos paÃses mais pobres é um dos temas principais em discussão, o ministro do Ambiente do Gana, Kwaku Afryie, alertou que “é muito desencorajador verificar que o objetivo global [do financiamento para adaptação à s alterações climáticas] ainda não está operacional nas salas onde decorrem as negociações”.
“Os negociadores africanos estão a ter muitas dificuldades em promover esta agenda. O que foi dito nas reuniões de alto nÃvel, pelos paÃses do G20 é muito diferente do que se está a passar nas negociações”, declarou numa reunião ministerial sobre adaptação no âmbito da 26.ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que decorre em Glasgow, na Escócia.
O seu homólogo do Quénia, Keriako Tobiko, encerrou o encontro de mais de duas horas no mesmo sentido, com um apelo concreto aos paÃses mais ricos: “Ponham o dinheiro na mesa”, referindo-se aos 100 mil milhões de dólares anuais que as nações mais desenvolvidas se comprometeram a contribuir anualmente para financiamento climático e que terá sido cumprida a cerca de 80 por cento.
Além da quantia prometida, reiterou o apelo que é defendido pelas Nações Unidas, para que metade do financiamento climático aos paÃses menos desenvolvidos seja garantida para adaptação e outra metade para mitigação dos efeitos da mudança climática, em medidas que visam reduzir emissões.
“Já houve demasiadas ‘workshops’, demasiados retiros, demasiadas conferências. Diz-se sempre que é tempo de agir agora, que chegou a altura… mas na verdade, já não há tempo”, declarou.
Keriako Tobiko citou diversas declarações feitas na cimeira de lÃderes mundiais na semana passada, incluÃda na COP26, prometendo ação concreta e compromissos de financiamento climático para adaptação, mas salientou que “infelizmente”, o que se tem visto é uma prática diferente.
A tónica do discurso, várias vezes reiterada, é que os paÃses que menos emitem são os que mais sofrem: emitem pouco porque são pequenos ou porque as suas economias não são tão desenvolvidas, sofrem mais porque os seus territórios são muito vulneráveis – especialmente no caso de pequenas nações insulares sujeitas à subida dos nÃveis dos oceanos – ou porque não têm dinheiro próprio para tornar o território e a população resistentes a esses efeitos.
O presidente do Banco de Desenvolvimento Africano, Akinwumi Adesina, anunciou que aquela instituição lançou um programa de aceleração da adaptação no continente, que recebe apenas “03% dos fundos para adaptação” disponÃveis e que perde “sete a quinze mil milhões de dólares por ano, um valor que pode chegar a 50 mil milhões em 2040” com os “efeitos devastadores” das alterações climáticas, que incluem seca, inundações e pragas de insetos.
A instituição financeira disponibiliza 12,5 mil milhões a aplicar em áreas como o apoio à agricultura – “mil milhões irão para alimentar 200 milhões de pessoas” -, educação e habitação, mas Adesina pediu aos outros paÃses que contribuam com outro tanto para tornar o programa uma realidade.
A secretária-geral adjunta das Nações Unidas, Amina Mohammed, apontou que há uma “lacuna considerável” entre as necessidades e a realidade no que toca à s verbas para adaptação, com “pouco mais de 20 mil milhões de dólares disponÃveis, uma fração dos 300 mil milhões que se espera serem necessários” globalmente em 2030.
A enviada especial das Maldivas à COP26, Sabra Nordeen, declarou que “quando o mundo consegue angariar biliões de dólares para responder à pandemia de covid-19 em 18 meses, é de questionar o ritmo e o compromisso real com o financiamento climático e a adaptação”.
O seu paÃs, referiu “é um exemplo dos mais vulneráveis”, obrigado a viver num mundo em que o aumento da temperatura global já atinge mais de um grau em relação à era pré-industrial, o que ameaça a sobrevivência das Maldivas, um arquipélago conhecido pelas praias paradisÃacas, mas que se vê ameaçado pela degradação dos recifes de corais que “durante séculos o protegeram”.
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