
Porto, 07 set 2021 (Lusa) — Uma equipa luso-americana liderada por investigadores do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO-InBIO) da Universidade do Porto concluiu que os vÃrus podem ser uma “grande ajuda” no tratamento do cancro, foi hoje anunciado.
Em comunicado, o centro da Universidade do Porto refere que o estudo, publicado na revista Frontiers in Immunology, mostrou que a necroptose (mecanismo para eliminar vÃrus e outros agentes patogénicos) “ter-se-á perdido em vários grupos de mamÃferos em diferentes alturas”.
A investigação, financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, foi liderada por investigadores do CIBIO-InBIO em colaboração com investigadores do Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental (CIIMAR) da Universidade do Porto e da Universidade Arizona (Estados Unidos da América).
A necroptose é um dos mecanismos de resposta usado pelos organismos hospedeiros quando uma célula humana ou animal é invadida por um vÃrus ou outro agente patogénico. Este mecanismo contribui para a resposta imunitária que mata as células infetadas.
A indução da necroptose é feita através da interação de duas proteÃnas — o RIPK3 e a MILKL – que induzem a “rutura da membrana plasmática celular e originam a morte celular”.
Citada no comunicado, Ana Pinto, primeira autora do artigo, esclarece que os investigadores analisaram estas duas moléculas em dezenas de espécies de mamÃferos e que, “surpreendentemente”, encontraram “múltiplas mutações que inativavam estes genes em várias linhagens de mamÃferos”.
“Curiosamente, também foi encontrada uma forte correlação entre a interrupção da necroptose em coelhos, lebres e cetáceos e a ausência do domÃnio N-terminal em poxvÃrus [responsáveis pela inibição da necroptose] que afetam mortalmente os coelhos, lebres e os cetáceos”, acrescenta o centro.
Também Filipe Castro, investigador do CIIMAR, destaca a importância do artigo, considerando-o como “o primeiro grande estudo evolutivo desta importante via de defesa nos mamÃferos”.
“A perda de necroptose várias vezes durante a evolução dos mamÃferos parece estar ligada à adaptação das espécies e sugere que esta via para eliminar vÃrus não é necessária para os mecanismos de defesa convencionais dos mamÃferos”, acrescenta.
Já Pedro Esteves, lÃder do grupo de investigação Imunologia e doenças emergentes (IMED) do CIBIO-InBIO, afirma que a perda destes genes em quatro grupos distintos de mamÃferos em diferentes momentos “sugere que essa perda terá surgido como uma vantagem para estas espécies”.
“Curiosamente, nestas espécies existem fortes evidências que a existência de tumores oncológicos seja muitÃssimo rara. Por isso, é bastante tentador relacionar a perda da via necrótica com uma maior infeção viral que levasse a que estes vÃrus pudessem evitar cancros”, salienta o investigador.
Na nota, o CIBIO-InBIO acrescenta ainda não deixar de ser curioso que “os vÃrus possam ter sido, no passado, importantes no controlo de desenvolvimento de cancros”.
“A utilização de vÃrus como possÃveis agentes oncológicos no tratamento de cancros tem vindo a ganhar força”, destaca o centro, acrescentando que resultados laboratoriais mostram que o vÃrus mixoma que afeta mortalmente os coelhos e lebres poderá futuramente “ser usado como estratégia terapêutica de cancros em humanos”.
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