
Paris, 23 jun 2021 (Lusa) – As crianças nascidas em 2021 poderão vir a enfrentar consequências cataclÃsmicas provocadas pelo aquecimento global quando tiverem 30 anos, ou mesmo antes, caso a humanidade não adote medidas urgentes para combater as alterações climáticas, alertam peritos da ONU.
“O pior ainda está para vir, e afetará a vida dos nossos filhos e netos, muito mais do que a nossa”, aponta o relatório provisório do Painel Intergovernamental de Especialistas sobre a Evolução do Clima (IPCC, na sigla em inglês), citado pela agência de notÃcias France-Presse (AFP).
De acordo com o documento, um aquecimento global acima do limiar de 1,5 ºC (graus centÃgrados), fixado pelo acordo de Paris, teria “impactos irreversÃveis para os sistemas humanos e ecológicos”, com os peritos a frisarem que a sobrevivência da humanidade pode estar ameaçada.
“A vida na Terra pode recuperar das grandes alterações climáticas, evoluindo para novas espécies e criando novos ecossistemas. A humanidade não pode”, sublinha o resumo técnico de 137 páginas do relatório, de quatro mil.
Com as temperaturas médias a subirem 1,1 °C desde meados do século XIX, os efeitos no planeta já são graves e tornar-se-ão cada vez mais violentos, ainda que as emissões de dióxido de carbono (CO2) venham a ser reduzidas, alertam os peritos.
Falta de água, fome, incêndios e êxodo em massa são alguns dos perigos destacados pelos peritos da ONU.
Pelo menos 420 milhões de pessoas enfrentarão “ondas de calor extremo” se o aquecimento global atingir mais 2 °C, em vez de mais 1,5 °C, advertem os peritos climáticos do IPCC.
Além disso, mais 80 milhões de pessoas em todo o mundo poderão vir a ser ameaçadas pela fome e 130 milhões poderão cair em pobreza extrema dentro de uma década, acrescentam.
Para alguns animais e espécies vegetais pode ser já demasiado tarde.
“Mesmo a +1,5 °C, as condições de vida mudarão para além da capacidade de adaptação de alguns organismos”, pode ler-se no projeto de relatório, citando os recifes de coral, dos quais dependem quinhentos milhões de pessoas.
O aquecimento global também deverá levar ao agravamento de doenças e epidemias. Até 2050, metade dos habitantes do planeta poderão estar expostos a doenças como a dengue, a febre amarela ou o vÃrus Zika.
As doenças ligadas aos nÃveis de ozono na atmosfera, devido à s vagas de calor, também vão “aumentar substancialmente”, afirmam.
Os especialistas do IPCC antecipam por isso pressões nos sistemas de saúde semelhantes à s causadas pela pandemia do novo coronavÃrus.
O relatório de avaliação global dos impactos do aquecimento, criado para apoiar decisões polÃticas, é muito mais alarmante que o antecessor, divulgado em 2018.
O documento deverá ser publicado em fevereiro de 2022, após a aprovação pelos 195 Estados-membros da ONU e depois da conferência climática COP26, marcada para novembro, em Glasgow, na Escócia.
Prevista originalmente para novembro de 2020, a 26.ª Conferência das Nações Unidas sobre Alterações Climáticas (COP26), com lÃderes de 196 paÃses, empresas e especialistas, foi adiada devido à pandemia.
Ao assinar o Acordo de Paris em 2015, os lÃderes mundiais comprometeram-se a limitar o aquecimento a +2 °C, comparativamente aos valores na era pré-industrial, se possÃvel a +1,5 °C.
No entanto, de acordo com o projeto de relatório do IPCC, exceder +1,5 °C já poderia levar a consequências progressivamente graves, “por vezes irreversÃveis”.
Segundo a Organização Meteorológica Mundial, a probabilidade de o limiar de +1,5 °C ser ultrapassado já em 2025 é de 40%.
Apesar das conclusões alarmantes, o relatório também oferece uma nota de esperança.
De acordo com os peritos da ONU, a humanidade ainda pode garantir um futuro melhor, mas para isso será necessário adotar já hoje medidas drásticas para travar as alterações climáticas.
“Precisamos de uma transformação radical dos processos e comportamentos a todos os nÃveis. Temos de redefinir o nosso modo de vida e de consumo”, defendem os peritos.
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