
Praia, 22 jun 2021 (Lusa) – O presidente do PAICV, Rui Semedo, pediu hoje uma investigação ao negócio da privatização da companhia aérea cabo-verdiana, que descreveu como um “conto de fadas” em que Cabo Verde perdeu “milhares de contos”.
Em conferência de imprensa realizada hoje na Praia, o lÃder do Partido Africano da Independência de Cabo Verde (PAICV, oposição), reagiu ao anúncio feito pelo primeiro-ministro de avançar para a reversão da privatização da Cabo Verde Airlines (CVA), descrevendo que Ulisses Correia e Silva “comunicou ao paÃs o desfecho infeliz de um negócio que todos sabiam que já tinha falido, há muito tempo”.
“Todos já sabiam, menos o primeiro-ministro que, cegamente, acreditou num conto de fadas que levou o paÃs a perder milhares de contos, além da perda de tempo, de oportunidade e de investimentos rentáveis e credÃveis”, afirmou Rui Semedo, presidente interino do PAICV até à s eleições diretas previstas para dezembro deste ano.
“Estamos perante um negócio, chamado de privatização, que não nos trouxe absolutamente nada. Não nos trouxe mercado, não nos trouxe capital e não nos trouxe experiência nenhuma. É um negócio onde o parceiro estratégico ganha tudo e Cabo Verde perde tudo e em toda a linha”, acusou o lÃder da oposição.
Em março de 2019, o Estado de Cabo Verde vendeu 51% da então empresa pública TACV (Transportes Aéreos de Cabo Verde) por 1,3 milhões de euros à Lofleidir Cabo Verde, empresa detida em 70% pela Loftleidir Icelandic EHF (grupo Icelandair, que ficou com 36% da CVA, marca comercial dos TACV) e em 30% por empresários islandeses com experiência no setor da aviação (que assumiram os restantes 15% da quota de 51% privatizada).
A CVA, em que o Estado cabo-verdiano mantém uma posição de 39%, concentrou então a atividade nos voos internacionais a partir do ‘hub’ do Sal, deixando os voos domésticos.
“Todos devem estar lembrados que estamos perante uma privatização em que o vendedor em vez de receber, pagou dinheiro ao comprador e que o mesmo parceiro não pagou nem um tostão com relação ao compromisso assumido”, afirmou ainda Rui Semedo, considerando que a anunciada reversão da privatização é uma “oportunidade para relançar os TACV nos voos domésticos”.
Na mesma declaração, Rui Semedo acusou o primeiro-ministro de não revelar todos os detalhes da situação atual: “Não nos diz qual é o prejuÃzo que significa para Cabo Verde a reversão tardia desta privatização, que nem deveria ter acontecido naqueles termos. Não nos diz claramente quantos recursos foram investidos naquele negócio falhado e os prejuÃzos que Cabo Verde irá averbar”.
“O que se sabe é que, só em avales e garantias, o Estado de Cabo Verde já perdeu nos últimos tempos por volta de 20 milhões de euros, apesar de todos os avisos e de todas as advertências”, acrescentou.
Daà que insista numa investigação ao negócio: “O PAICV continua a defender que negócios desta natureza devem ser feitos com transparência, com rigor, com envolvimento dos sujeitos polÃticos e com firmeza na defesa dos interesses nacionais. E a pergunta que fica no ar, é que se não é chegada a hora de as autoridades competentes investigarem, a fundo, os contornos deste negócio que tanto prejuÃzo já deu a Cabo Verde”.
O Governo cabo-verdiano inicia esta semana negociações para reverter a privatização da CVA, decisão que o primeiro-ministro justifica com a indisponibilidade dos investidores islandeses que lideram a companhia para a injeção de capital.
“O Governo vai encetar um processo de reverter a privatização dos 51% do capital que está na posse, hoje, da Loftleidir Icelandic, tendo em conta que nós não estamos a perspetivar que num futuro próximo, primeiro, haja injeção de capital por parte do parceiro estratégico de forma a garantir a perenização e a continuidade das operações da companhia”, disse o primeiro-ministro, Ulisses Correia e Silva.
Como segundo motivo, Ulisses Correia e Silva apontou o “incumprimento de alguns acordos estabelecidos em março”, entre o Governo e a administração da CVA, para permitir a retoma das operações da companhia após 15 meses de suspensão da atividade devido à pandemia de covid-19.
A administração da CVA, liderada por investidores islandeses, admitiu na segunda-feira ter sido surpreendida com a intenção anunciada pelo Governo, de reverter a privatização da companhia, mas acredita numa “conclusão benéfica” para todos.
“A direção da Cabo Verde Airlines ficou surpreendida ao saber destes comentários do primeiro-ministro ontem [domingo] à noite. É claro que esta é uma questão para os acionistas resolverem e estou confiante de que eles chegarão a uma conclusão benéfica para a companhia aérea, para os seus passageiros e para os funcionários”, afirmou o diretor-executivo da CVA, Erlendur Svavarsson, numa declaração enviada na segunda-feira à Lusa.
A companhia deveria ter retomado na sexta-feira passada os voos internacionais, com uma ligação entre o Sal e Lisboa, que acabou por não se realizar, após várias horas de espera no aeroporto, face à falta de autorização da empresa ASA, que gere o espaço aéreo e os aeroportos, num alegado diferendo, não esclarecido ainda por qualquer uma das partes, sobre pagamentos em atraso por parte da empresa.
O Governo cabo-verdiano anunciou no final de fevereiro deste ano um acordo com a administração da companhia para a retoma das operações, prevendo a renegociação com credores, o que envolve também o grupo Icelandair, que fornece (através da Loftleidir, em leasing) as aeronaves da companhia.
Na sequência deste entendimento, o Governo cabo-verdiano autorizou em 06 de março o quinto aval do Estado a um pedido de empréstimo de emergência da administração da CVA, de 12 milhões de euros. Com este aval, os financiamentos pedidos pela companhia desde novembro, com garantia do Estado, elevam-se a quase 20 milhões de euros, segundo cálculos da Lusa.
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