
Lisboa, 27 mar 2021 (Lusa) — Portugal precisa de apostar na industrialização e de ficar menos dependente do setor dos serviços, nomeadamente do turismo, considerou o sociólogo Manuel Carvalho da Silva, em entrevista à agência Lusa.
“A indústria tem muito mais capacidade de aumentar a produtividade, de propiciar aumento da riqueza e de criar e estabilizar emprego e qualificar emprego do que o setor dos serviços, em geral, e muito mais que este tipo de serviços que a matriz de desenvolvimento portuguesa tem”, justificou quando questionado sobre o caminho que o paÃs deve seguir para ultrapassar a atual crise, desencadeada pela pandemia de covid-19.
“O grande problema, o primeiro problema é que nós temos um enviesamento na nossa matriz de desenvolvimento”, apontou.
Para Carvalho da Silva, as atividades estão demasiadamente centradas numa lógica de produção de serviços “muito ligados ao turismo”, o que faz emergir o setor imobiliário e outros de proximidade à quela atividade âncora, sem que o resultado se reflita na qualidade de vida dos trabalhadores.
“Esta especialização produtiva não tem futuro, não nos permite sair da cepa torta, para usar uma expressão comum”, declarou.
“É necessário mudanças e mudanças muito profundas. A pandemia, aquilo que se está a passar, dá indicações nesse sentido? A mim, parece-me que não”, concluiu o sociólogo.
De acordo com Carvalho da Silva, a discussão em torno do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) é disso exemplo: “O clamor de grande parte dos setores empresariais portugueses não se volta para essa necessidade de mudança. Volta-se para uma reativação de atividades diversas e até uma ideia de que haverá um regresso à normalidade, tomando como conceito de normalidade aquilo que tÃnhamos anteriormente”.
“Isto não resolve”, acentuou. Investigador ligado ao Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e ex-dirigente sindical (CGTP-IN), Carvalho da Silva olha com ceticismo para o atual cenário.
“A saÃda desta situação deve levar a que haja um esforço imenso para haver investimento e fazer-se investimento e depois proteção à s pessoas, à s famÃlias e a tudo o que são atividades que possam manter-se sem excesso de ficção, ou seja, tudo o que sejam atividades que tenham um mÃnimo de possibilidade de se manterem devem ser protegidas. Mas não tenhamos a ilusão de que é possÃvel proteger tudo o que tÃnhamos”, advertiu.
O turismo, indicou, precisa de acertos. “Se não tivermos reacertos no turismo, o que é que temos? Temos as cidades a despir-se, temos as pessoas a terem mais problemas de mobilidade, a serem empurradas e a terem custos com a habitação incrÃveis, com a deslocação para o trabalho, temos um desequilÃbrio do território”, observou.
A questão é “qualitativa”, justificou, defendendo uma articulação entre o desenvolvimento do setor do turismo e polÃticas de transportes, no quadro geral das mobilidades, a par de “uma estratégia bem definida para as polÃticas de habilitação, que procure que as cidades não fiquem despidas”.
Carvalho da Silva é atualmente coordenador do COLABOR — Laboratório Colaborativo para o Trabalho, Emprego e Proteção Social.
Os dois primeiros casos de pessoas infetadas em Portugal com o novo coronavÃrus foram anunciados em 02 de março de 2020, enquanto a primeira morte foi comunicada ao paÃs em 16 de março. No dia 19, entrou em vigor o primeiro perÃodo de estado de emergência, que previa o confinamento obrigatório, restrições à circulação em Portugal continental e suspensão de atividade em diversas áreas.
A suspensão ou restrição de atividade em variados setores, como restauração, comércio, turismo e cultura, entre outros, elevou o número de falências em Portugal, agravou situações de precariedade laboral e provocou aumento do desemprego.
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