
Praia, 04 nov 2020 (Lusa) – O Banco de Cabo Verde admite que a recessão esperada para 2020 será mais profunda, podendo atingir uma contração de 11% do Produto Interno Bruto (PIB), devido aos riscos que a economia cabo-verdiana ainda enfrenta com a pandemia.
As previsões constam do Relatório de PolÃtica Monetária, divulgado hoje pelo banco central cabo-verdiano, e apontam ainda para uma recuperação económica mais modesta em 2021, que pode ser de apenas 3% do PIB, em função dos mesmos riscos, sobretudo no atraso da retoma do turismo no arquipélago, ainda condicionada pela pandemia de covid-19.
A estimativa de outubro do Banco de Cabo Verde (BCV) aponta para, no cenário base, uma recessão de 8,1%, que pode chegar aos 10,9% do PIB no cenário mais adverso, enquanto que para 2021 o crescimento poderá oscilar entre 3,0 e 5,1%.
Estas previsões contrastam com as expectativas oficiais do Governo cabo-verdiano, na proposta de Orçamento do Estado para 2021 que já admitiam uma recessão histórica, entre 6,8% e 8,5% do PIB este ano, e um crescimento económico no próximo ano de 4,5%, caso se confirme o desconfinamento internacional.
Cabo Verde depende economicamente do turismo, que representa 25% do PIB, mas o setor está parado desde 19 de março, quando foram suspensos os voos internacionais comerciais, para conter a transmissão da covid-19.
No relatório hoje divulgado, o BCV admite que o “exercÃcio de programação financeira encerra um elevado nÃvel de incertezas” no atual contexto, face à “natureza do atual choque exógeno” provocado pela pandemia.
Entre vários riscos ao desempenho económico, o banco central aponta os efeitos na procura turÃstica em dezembro de 2020 e no primeiro trimestre de 2021, devido à segunda vaga de contágios por covid-19 nos principais paÃses emissores de turistas para Cabo Verde, sobretudo europeus.
Igualmente os impactos no mercado de trabalho e rendimento das famÃlias “de eventuais encerramentos de empresas sem condições de acomodar uma dilatação temporal ou um agravamento de restrições à s suas atividades”, mas também os relacionados com “eventuais atrasos ou adiamentos no desembolso de ajudas externas ao Estado” e com isso também a execução dos Orçamentos do Estado de 2020 (Retificativo) e 2021.
Outro dos receios do BCV prende-se com um “impacto maior que o antecipado” no processo de saÃda do regime de moratórias do crédito bancário e do regime de ‘lay-off’ simplificado, implementadas desde abril e que continuam em vigor.
“Considerando, num cenário adverso, a materialização dos riscos acima elencados, a contração do PIB em volume em 2020 seria de 11% e o crescimento em 2021 não ultrapassaria os 3%”, lê-se no relatório.
O BCV sublinha que “as incertezas que rodeiam o processo de recuperação da economia” de Cabo Verde, “do pior choque sofrido desde a independência, interpelam a um reiterado esforço de acomodação monetária pelo banco central”.
Neste quadro, e perspetivando “contidas pressões inflacionistas e na balança de pagamentos”, o BCV refere que manterá inalteradas as taxas diretoras, das facilidades permanentes de cedência e de absorção da liquidez, bem como o coeficiente das disponibilidades mÃnimas de caixa, em “nÃveis historicamente baixos”, de 0,25, 0,5, 0,05 e 10%, respetivamente.
“Igualmente, o provisionamento excecional de liquidez aos bancos e as regras prudenciais mais flexÃveis continuarão a suportar a intermediação financeira e, consequentemente, a facilitar o financiamento da economia”, frisou o BCV.
E o banco central concluiu: “A autoridade monetária e supervisora do sistema financeiro nacional manterá um controlo apertado dos riscos à estabilidade nominal e financeira do paÃs, que constitui condição necessária para conter os impactos da pandemia da covid-19 e promover o progresso económico e social do paÃs”.
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