
Lisboa, 22 set 2020 (Lusa) — A PolÃcia Judiciária (PJ) não teve conhecimento do acesso das autoridades francesas à s provas apreendidas a Rui Pinto durante a detenção do criador do Football Leaks na Hungria, revelou hoje o inspetor da PJ José Amador.
Na quinta sessão do julgamento que decorre no Tribunal Central Criminal de Lisboa, o inspetor reconheceu ainda que a polÃcia húngara reuniu o material apreendido em 26 sacos aquando da detenção, mas apenas 24 chegaram a Portugal dois meses depois, sendo que os dois sacos em falta conteriam “documentos e cabos de ligação”.
“Quando o saco foi aberto, verificava-se a ausência de dois sacos. Liguei para a Hungria para perceber, consegui chegar à fala com o colega húngaro e naquele momento ele não conseguia explicar a falta dos sacos. Foi necessário ele transmitir a informação aos superiores e no dia seguinte foi-me dito que os sacos teriam estado no cofre [da esquadra] e que na sequência de outra solicitação os sacos teriam sido levados para outro local e que tinham sido alvo de uma intervenção”, afirmou.
O inspetor da Judiciária admitiu “alguma estupefação” com este procedimento e revelou que “os sacos denotavam ter sido abertos e os selos [rubricados pelo arguido] recolocados”. Paralelamente, José Amador confirmou também que não esteve “presente” na detenção realizada em 16 de janeiro de 2019, uma vez que as forças de autoridade húngaras não permitiram a intervenção na operação de elementos das autoridades portuguesas.
“Houve informação que não passou por todos os órgãos policiais”, sublinhou o inspetor, acrescentando que também não foi feito “registo fotográfico” da intervenção de outras autoridades e que não tinha “explicação” para essa omissão: “Os pedidos de esclarecimento foram feitos por várias vias e ao mais alto nÃvel, o Eurojust. O magistrado português pediu informações ao magistrado húngaro”.
Por outro lado, José Amador referiu também que chegou ao seu conhecimento que “o arguido já teria prestado declarações à s autoridades francesas enquanto estava detido” e que lhe foi explicado que “os dispositivos seriam intervencionados”. Ato contÃnuo, foi questionado pela juÃza se a PJ fez diligências para apurar a situação junto das autoridades francesas, tendo a testemunha respondido que isso “não ocorreu”, segundo o seu conhecimento, e que “as autoridades portuguesas não tinham sequer a capacidade de se opor”.
No entanto, José Amador reiterou a ideia de que os dispositivos apreendidos e entretanto intervencionados por elementos franceses e húngaros não foram alvo de manipulação, devido à existência de um resumo digital realizado pela PJ em Portugal, após a extradição de Rui Pinto, e que era idêntico ao efetuado anteriormente pela polÃcia húngara.
“O resumo digital é um ponto fundamental na aferição da integridade. Estamos perante o mesmo conteúdo digital, essa é a metodologia universal utilizada”, concluiu o inspetor, cuja inquirição será retomada durante a tarde.
Rui Pinto, de 31 anos, responde por um total de 90 crimes: 68 de acesso indevido, por 14 de violação de correspondência e por seis de acesso ilegÃtimo, visando entidades como o Sporting, a Doyen, a sociedade de advogados PLMJ, a Federação Portuguesa de Futebol e a Procuradoria-Geral da República, e ainda por sabotagem informática à SAD do Sporting e por extorsão, na forma tentada. Este último crime diz respeito à Doyen e levou também à pronúncia do advogado AnÃbal Pinto, então representante de Rui Pinto.
O criador do Football Leaks encontra-se em liberdade desde 07 de agosto, “devido à sua colaboração” com a PolÃcia Judiciária (PJ) e o seu “sentido crÃtico”, mas está, por questões de segurança, inserido no programa de proteção de testemunhas em local não revelado e sob proteção policial.
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