
Bogotá, 15 set 2020 (Lusa) — A liderança da ex-guerrilha colombiana das FARC pediu publicamente perdão pelos milhares de sequestros que efetuou no paÃs sul-americano e lamentou a “dor” e as “humilhações” infligidas à s vÃtimas.
“O sequestro foi um grave erro do qual apenas temos de nos arrepender”, declarou num comunicado hoje divulgado a direção desta formação que se tornou num partido polÃtico designado Força alternativa revolucionária comum.
Este foi o mais expressivo pedido de perdão feito pela ex-guerrilha das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) desde a assinatura em 2016 de um acordo de paz com o Governo.
A antiga guerrilha marxista, fundada em 1964 e uma das mais poderosas da América Latina, reconheceu igualmente que “os sequestros (…) feriram de morte” a “legitimidade e a credibilidade” da sua rebelião armada contra o Estado colombiano.
“Este fardo (…) ainda pesa hoje na consciência e no coração de cada um de nós”, acrescentou o comunicado.
A ex-guerrilha responde pelos seus atos perante um tribunal especial criado pelo acordo de paz que permitiu a desmobilização de cerca de 13.000 rebeldes das FARC, incluindo 7.000 combatentes.
A Justiça Especial para a Paz (JEP) investiga mais de 20.000 raptos perpetrados pelas FARC, designadamente centenas de polÃcias, e personalidades polÃticas como a franco-colombiana Ingrid Betancourt, que permaneceu seis anos em cativeiro antes de ser libertada em 2008 durante uma operação militar.
A antiga rebelião deve também responder pelo recrutamento de milhares de crianças e adolescentes no decurso de mais de meio século de conflito armado.
Os principais chefes da ex-guerrilha comprometeram-se em confessar os seus crimes perante a JEP e a indemnizar as vÃtimas e suas famÃlias, em troca de penas alternativas à prisão. Caso não cumpram este compromisso, deverão comparecer perante a justiça comum.
Segundo os números oficiais, o complexo conflito armado na Colômbia provocou mais de nove milhões de vÃtimas (mortos, desaparecidos e deslocados internos).
A dissolução da guerrilha das FARC diminuiu o nÃvel de violência na Colômbia, mas grupos armados, incluindo com ligações à extrema-direita, continuam ativos em zonas recuadas do paÃs, alimentadas principalmente pelos recursos extraÃdos do narcotráfico.
Os antigos guerrilheiros das FARC e os lÃderes comunitários são considerados geralmente um obstáculo para estas grupos criminais, que procuram controlar os territórios também para aumentar as culturas ilegais de coca destinadas ao fabrico de cocaÃna.
Um relatório nas Nações Unidas divulgado no final de 2019 indicou que nesse ano foram mortos na Colômbia 77 antigos combatentes das FARC, no ano “mais mortÃfero” para os ex-guerrilheiros desde a assinatura do acordo de paz de 2016.
Em maio de 2020, o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz (Indepaz) revelou que nos quatro meses deste ano foram assassinados na Colômbia pelo menos 100 ativistas e lÃderes sociais.
O paÃs permanece ainda confrontado com as ações armadas do Exército de Libertação Nacional (ELN), a última guerrilha ativa, para além dos narcotraficantes e de formações paramilitares.
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