
BrasÃlia, 27 ago 2020 (Lusa) – O vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, afirmou hoje que as queimadas que fustigam a Amazónia são como uma “agulha no palheiro”, tendo em conta a gigantesca dimensão daquela floresta, negando que esta esteja a arder.
“Nós temos essas questões das queimadas. Os dados de 26 de agosto indicavam que nós tÃnhamos 24 mil focos de calor [incêndio] na Amazónia Legal. Ora, minha gente, a Amazónia Legal tem cinco milhões de quilómetros quadrados. Vinte e quatro mil focos de calor significa que tem um foco de calor a cada 200 quilómetros quadrados. Isso é agulha no palheiro”, disse Mourão, num debate organizado pelo Canal Rural.
“E o que está a ser colocado para o mundo inteiro? Que a floresta está queimando, que a Amazónia está a arder”, acrescentou o vice-presidente ao minimizar os incêndios que lavram na região, advogando que o paÃs “não é um vilão ambiental”.
De acordo com dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), órgão vinculado ao Governo brasileiro, foram registados até ao momento 24.633 focos de incêndio em agosto, o segundo maior número para o perÃodo dos últimos 10 anos.
Os incêndios provocados por ações de desflorestação afetaram a saúde de milhares de brasileiros que vivem na região amazónica, segundo o relatório “O Ar é Insuportável: Os impactos das queimadas associadas ao desmatamento da Amazónia brasileira na saúde”.
O levantamento, divulgado na quarta-feira pelo Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazónia (IPAM), o Instituto de Estudos para PolÃticas de Saúde (IEPS) e a Human Rights Watch (HRW), utiliza informações oficiais de saúde e meio ambiente para estimar que 2.195 internamentos hospitalares no Brasil por doenças respiratórias em 2019 são atribuÃveis à s queimadas na maior floresta tropical do planeta.
Deste total, quase 500 internamentos envolveram crianças com menos de um ano de idade, e mais de mil foram de pessoas com mais de 60 anos.
Contudo, Mourão menosprezou o estudo, declarando não entender a origem desses dados.
“Eu vejo editores e formadores de opinião a dizer que a fumaça está a prejudicar as pessoas. Eu não consigo entender de onde essas pessoas conseguem extrair esses dados e conseguem ouvir isso”, disse ainda Mourão, que, além da vice-presidência do Brasil, lidera o Conselho Nacional da Amazónia Legal, entidade que coordena diversas ações direcionadas à preservação daquela que é a maior floresta tropical do mundo.
As queimadas na Amazónia brasileira geralmente atingem o seu pico nos meses secos na floresta, entre agosto e setembro. Com os incêndios, a população que vive na região inala fumo e poluentes ligados a doenças respiratórias e cardiovasculares, de acordo com o levantamento.
“Até que o Brasil efetivamente [tenha o] controlo da desflorestação, podemos esperar que as queimadas continuem a cada ano, impulsionando a destruição da Amazónia e intoxicando o ar que milhões de brasileiros respiram”, diz Maria Laura Canineu, diretora da Human Rights Watch no Brasil.
“O fracasso do Governo [do Presidente brasileiro, Jair] Bolsonaro em lidar com esta crise ambiental tem consequências imediatas para a saúde da população na Amazónia, e consequências de longo prazo para a mudança climática global”, acrescentou.
Desde que Bolsonaro assumiu o Governo brasileiro em janeiro de 2019, o paÃs adotou uma polÃtica de enfraquecimento das agências ambientais.
O executivo brasileiro decretou uma proibição de queimadas na Amazónia durante a estação seca deste ano, mas o seu impacto provavelmente será limitado se não houver uma fiscalização.
A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta, com cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados, e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, BolÃvia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).
MYMM (CYR) // AMG
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