
Maputo, 12 mai 2020 (Lusa) – A violência armada em Cabo Delgado (norte) e o terceiro ano de seca no sul devem prevalecer como principais causas de insegurança alimentar em Moçambique nos próximos meses, agravada pela covid-19, refere um relatório internacional.
As duas zonas norte e sul pintadas a laranja vivo destacam-se no mapa do paÃs atualizado pela Rede de Sistemas de Alerta Antecipado de Fome (rede Fews, na sigla inglesa), que agrega organizações norte-americanas e serve como ferramenta de auxÃlio à ação humanitária.
Laranja vivo é a cor do nÃvel três de alerta (nÃvel de stress), numa escala de que vai do nÃvel um (risco mÃnimo) até ao nÃvel cinco (fome severa).
No nÃvel três, os agregados familiares mais vulneráveis “reduzem a frequência e quantidade das refeições, recorrem a comida mais barata e pedem-na a familiares ou amigos”.
“Também recorrem a alimentos silvestres, menos desejados e menos recomendados”, lê-se no relatório ao descrever o dia-a-dia da população do sul de Moçambique e do norte, na faixa costeira de Cabo Delgado.
Os nÃveis de stress devem prevalecer nas duas regiões, alerta a rede Fews, cujo mais recente relatório faz uma antevisão até setembro e prevê um novo problema.
“Em todo o paÃs, o número de pessoas que necessitam de ajuda alimentar de emergência é suscetÃvel de aumentar devido aos impactos relacionados com a covid-19”, destaca.
É que devido à s restrições globais e no paÃs, com abrandamento da economia, “as oportunidades diárias de ganhar alguma coisa têm sido drasticamente afetadas para milhares de famÃlias urbanas pobres”.
Devido à s medidas tomadas para conter a proliferação da pandemia da covid-19, provocada pelo novo coronavÃrus, prevê-se que “um número significativo de agregados familiares vulneráveis em zonas urbanas e periurbanas entre em stress (nÃvel dois de risco) para garantir alimentos, durante o mês de maio, uma vez que as atividades remuneradas são mais limitadas”.Â
Se o abrandamento da economia e as restrições em curso ainda estiverem em vigor em junho, é provável que “a insegurança alimentar aguda nas zonas urbanas se agrave à medida que as poupanças e o apoio dos amigos e famÃlia diminuem, conduzindo a lacunas alimentares para as famÃlias mais vulneráveis que provavelmente irão entrar no nÃvel de crise alimentar”, antevê o relatório.
Para já, o atual estado de emergência no paÃs, para prevenção da pandemia, está em vigor até final de maio.
Além deste pano de fundo, a seca nas provÃncias de Gaza e Inhambane e a violência armada em Cabo Delgado vão impedir as famÃlias de ter as suas colheitas de subsistência.
Ao mesmo tempo, o preço dos alimentos permanece alto, incessÃvel para muitas, sendo que as famÃlias que socorrem os seus membros mais desamparados deverão em breve deixar de ter recursos disponÃveis, nota o documento.
Os preços altos dos alimentos devem-se à escassez de fornecimento que já se verificava nalguns artigos, como o milho, agravada nos últimos dois meses com as restrições de circulação fronteiriça e com o abrandamento da economia sul-africana devido à pandemia de covid-19.
Este cenário tem levado a um aumento de preços nos circuitos de comércio informal que abastecem a maioria da população.
O cenário faz também aumentar o número de emigrantes que regressa a casa, fazendo crescer as necessidades de alimentação e diminuindo as remessas oriundas do paÃs vizinho.
No caso de Cabo Delgado, “prevê-se um aumento do número de famÃlias deslocadas e espera-se que muitas delas necessitem de assistência alimentar humanitária de emergência”, prevê o relatório.
O cenário é mais estável em zonas antes afetadas por ciclones e inundações, que poderão enfrentar nÃveis de stress, mas, no geral, incorrem em riscos mÃnimos de insegurança alimentar.
“As famÃlias pobres serão capazes de satisfazer as suas necessidades alimentares básicas, embora nalgumas áreas não possam pagar outros produtos não alimentares”, lê-se no relatório.
“A recuperação económica será muito provavelmente lenta, sendo pouco provável que os rendimentos regressem aos nÃveis anteriores durante vários meses”, conclui.
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