
Redação, 03 mai 2020 (Lusa) – A morte do treinador Nuno Alpiarça, na quinta-feira, “levanta suspeitas de nova falha do sistema integrado de emergência médica”, pode ler-se numa carta da Associação Nacional de Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (ANTEPH).
Dirigida aos deputados da Assembleia da República, a missiva, assinada pelo presidente da direção Nelson Teixeira Batista, foi subscrita também pela Fénix – Associação Nacional de Bombeiros e Agentes de Proteção Civil.
Nesta, a ANTEPH denuncia falhas recorrentes “no socorro pré-hospitalar”, pedindo de forma urgente que sejam apuradas “responsabilidades” e que se possa “evitar situações idênticas no futuro”.
O sistema integrado de emergência médica “tem vindo a ficar cada vez menos integrado e a demonstrar que está desadequado, assimétrico e não responde à realidade das necessidades do socorro em Portugal de forma homogénea”, pode ler-se, numa nota que coloca a responsabilidade no INEM para que reveja o sistema.
Teme-se, assim, que “muitas outras” mortes poderão surgir, sem investigação e reformulação das falhas, face à “ausência de qualificações” das tripulações, falha no cumprimento do Regulamento de Transporte de Doentes, um sistema de triagem “restritivo e desenquadrado” e um modelo dedicado à s Viaturas Médicas de Emergência e Reanimação (VMER) no qual a maioria dos que as tripulam “não possuem uma especialidade médica de emergência”.
Sobre as VMER, a ANTEPH explica ainda que estas permitem responder em tempo útil apenas “à s ocorrências na proximidade do hospital”, além de que as ambulâncias carecem de “equipamento adequado”, completando uma lista de problemas que se estende a uma “rede de serviços de urgência básica” pouco preparada.
“ExcelentÃssimos senhores deputados, não podemos continuar a assistir à morte de dezenas de pessoas por desorganização, incompetência e incapacidade de implementar soluções por parte do INEM e do Ministério da Saúde”, continua Nelson Teixeira Batista.
Para a ANTEPH, “urge intervir”, com a criação de cargos especÃficos dentro da emergência médica, um melhor equipamento das ambulâncias de socorro, a integração do Instituto Nacional de Emergência Médica na Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil, enquanto direção nacional, além da passagem de competências para as administrações regionais de saúde e para os Centros Distritais de Operações de Socorro (CDOS).
Outras das medidas elencadas prende-se com a profissionalização das equipas de emergência, a envolvência de empresas do setor privado como reforço, a criação de uma rede de ambulâncias para doentes crÃticos, a implementação de uma “rede reforçada de meios aéreos polivalentes” e “uma permanente auditoria ao sistema”.
No sábado, o antigo atleta paralÃmpico Carlos Lopes considerou o treinador Nuno Alpiarça, falecido na quinta-feira, uma “vÃtima de covid-19, sem o ser”, e criticou a demora entre a chamada para o INEM e a chegada ao hospital.
Contactado pela Lusa, o INEM garantiu que “não existiu qualquer atraso na assistência” e assegura que, “nas duas horas que decorreram entre o pedido de ajuda inicial e a chegada ao hospital, o doente esteve sempre a receber a assistência médica adequada à sua condição clÃnica”.
Depois de o estado da vÃtima se ter agravado, o INEM diz ter acionado um pedido de apoio de uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER), na qual “foram realizadas manobras de Suporte Básico de Vida (SBV) durante aproximadamente 20 minutos”, tendo a vÃtima sido transportada para o Hospital de Santa Maria, em Lisboa, à s 11:43.
Segundo o INEM, “não faz sentido algum referir que o doente demorou duas horas a chegar ao hospital, quando a VMER é precisamente um meio de emergência altamente diferenciado que funciona como uma extensão do hospital”.
Nuno Alpiarça, de 53 anos, ex-atleta do Sporting, morreu na quinta-feira, pouco antes de iniciar um treino, na zona de Benfica, em Lisboa.
SIF (AO/FB) // PFO
Lusa/Fim



