
Lisboa, 29 abr 2020 (Lusa) – O sistema de vigilância sentinela da gripe sazonal vai ser alargado à covid-19 para “conhecer com detalhe” o que se vai passar na população portuguesa com a coexistência dos dois vÃrus, revelou à Lusa o epidemiologista Carlos Dias.
Desde 1990 que a Rede Médicos-Sentinela, um sistema de observação baseado nos cuidados de saúde primários, faz a vigilância epidemiológica da gripe, sendo o objetivo adaptá-la ao novo coronavÃrus SARS-Cov2, adiantou o coordenador do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional Dr. Ricardo Jorge (INSA).
“Esse é um aspeto muito importante que está a ser preparado desde já” porque são duas “doenças que têm uma expressão respiratória óbvia, em termos de sinais, de sintomas, a tosse, febre, dificuldade respiratória, etc”, disse Carlos Dias.
Portanto, quando existem “sistemas que vão recolhendo dados sobre pessoas com estas queixas convém destrinçar que agente está envolvido e convém fazê-lo o mais precocemente possÃvel”.
“Estamos no final da época gripal 2019/2020, mas é conveniente desde já preparar a próxima época de gripe porque existe a possibilidade, não negligenciável, de que no próximo inverno tenhamos em Portugal, na Europa e no mundo a circulação desses dois vÃrus, ou seja, ao mesmo tempo podemos ser infetados pelo vÃrus da gripe sazonal e pelo vÃrus que causa a covid”, salientou.
Carlos Dias explicou que a gripe sazonal tem épocas em que o vÃrus é pouco agressivo, mas tem outras em que é mais agressivo.
O vÃrus que causa a doença covid-19, apesar de já ter sofrido algumas mutações, não tem evidência ainda de que essas mutações tenham resultado em formas menos agressivas da sua infeção.
Portanto, defendeu, o paÃs tem que “se preparar desde já” com sistemas de informação para que “até a próxima época de gripe” e durante toda a época se possa “conhecer com detalhe e com um atraso mÃnimo o que é que se vai passar na população portuguesa quanto à coexistência deste dois vÃrus”.
O SARS-Cov-2 “é um vÃrus novo que pertence a uma famÃlia de vÃrus corona” que “todos os invernos circula na população portuguesa e noutras”.
Sendo novo, “é mais infeccioso, tanto quanto se sabe, e tem uma letalidade maior do que a da gripe, mas muito menor” do que por exemplo o ébola ou outros vÃrus de famÃlias diferentes “muito mais letais”.
No entanto, a doença causa numa proporção de pessoas, sobretudo idosas e com doenças associadas, necessidades de cuidados diferenciados hospitalares, cuidados intensivos, auxÃlio e suporte à respiração e ao funcionamento dos órgãos que “são preocupantes”.
O investigador VÃtor Borges, da Unidade Bioinformática, do INSA, que está a estudar a diversidade genética do SARS-CoV-2 em Portugal com base na análise do genoma, disse que já se começa a perceber a dinâmica da sua evolução em Portugal.
“Tem “bastante diversidade”, o que significa que houve “introduções de vários pontos geográficos do vÃrus” em Portugal.
VÃtor Borges explicou que o vÃrus acumula cerca de duas ou três mutações por mês. “Cada vÃrus que sequenciamos, agora nesta fase, passados quatro meses do inÃcio da epidemia, tem cerca de nove, dez mutações em relação ao vÃrus inicialmente sequenciado na China”.
A maior parte dos vÃrus que circula em Portugal é de “uma linhagem que circula maioritariamente na Europa”, mas há outras linhagens menos frequentes. Deu como exemplo, os genomas já conhecidos do Alentejo, nomeadamente de Évora, que têm um perfil genético que não é o que mais circula na Europa.
São variantes com “alguma expressão” em Espanha, “o que indica que potencialmente houve alguma introdução na região do Alentejo que terá vindo de Espanha”.
Com este estudo, Portugal está a contribuir para “um conhecimento à escala global” e para um “desenho da vacina mais direcionado para as grandes variantes que estão a circular e que possa ser mais eficiente”, considerou.
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