
Redação, 03 jul 2019 (Lusa) — Os portugueses são utilizadores de Internet conscientes do problema da desinformação, que não permitem que a sua confiança na comunicação social seja abalada, apontam investigadores com base em questionários internacionais.
Num artigo intitulado “‘Fake news’ e o seu impacto na confiança nas notÃcias: Usando o caso português para estabelecer linhas de diferenciação”, os investigadores Tiago Lima Quintanilha e Tiago Lapa, do ISCTE, e Marisa Torres da Silva, da Universidade Nova de Lisboa, recorreram a dados do Digital News Report (DNR) de 2017 e 2018 do Instituto Reuters para o Estudo do Jornalismo, que em Portugal é feito em parceria com o OberCom.
A partir desses dados, os investigadores elaboram sobre “as principais razões para os portugueses (mais e mais familiarizados com ‘fake news’ e desinformação e os seus impactos) apresentarem maiores nÃveis de confiança nas notÃcias do que cidadãos de outros paÃses, como os Estados Unidos — razões que estão ligadas ao sistema mediático português e ao seu contexto histórico”.
O artigo publicado na Communication & Society recorda os resultados de 2017 do DNR que colocavam os portugueses em terceiro lugar entre os paÃses abrangidos no que dizia respeito à confiança nas notÃcias, apenas atrás do Brasil e da Finlândia, tendo subido uma posição em 2018.
No entanto, também em 2018, mais de dois terços dos portugueses (71%) mostravam-se preocupados com a presença de conteúdos falsos na Internet, sendo o segundo paÃs onde este receio mais se fazia sentir, atrás do Brasil, muito acima da Finlândia (55%).
“É importante perceber que estudar ‘fake news’ e confiança nas notÃcias em Portugal basicamente significa usar as particularidades nacionais para aprofundar o que é um fenómeno global, usando um enquadramento conceptual que molda estes dois fenómenos para determinar considerações especÃficas”, escrevem os autores na conclusão.
Ao contrário do contexto europeu, “e apesar de a vasta maioria de utilizadores portugueses de Internet ver pelo menos um dos tipos de notÃcias que se enquadram no conceito lato de ‘fake news’, ainda assim mostram nÃveis elevados de confiança quer nas notÃcias em geral quer nas notÃcias que eles escolhem”.
Os autores do texto encontram várias explicações para a “discrepância entre a confiança nas notÃcias em Portugal e noutros paÃses europeus”: por um lado pode dever-se à s “caracterÃsticas únicas do seu sistema mediático” e, em segundo lugar, “a fragilidade do mercado mediático português não se traduz necessariamente em ameaças à liberdade de imprensa, apesar das pressões polÃticas e económicas existentes”.
“Em terceiro lugar, apesar dos seus baixos nÃveis em Portugal, a crescente consolidação do profissionalismo jornalÃstico pode mover o paÃs para longe do modelo ‘clássico’ polarizado-pluralista e explicar a resistência ao controlo polÃtico e instrumentalização. Em quarto lugar, a perceção pública dos jornalistas e dos media é altamente positiva em termos de credibilidade, confiança e do seu papel na democracia”, acrescentam.
Os autores concluem que “a grande maioria dos inquiridos portugueses diz que se cruza com notÃcias falsas com regularidade, embora, ao contrário de noutros paÃses europeus, este encontro não resulte numa desconfiança generalizada”.
Os portugueses estavam “particularmente preocupados com a existência de jornalismo de fraca qualidade e de peças construÃdas a partir de factos distorcidos de forma a beneficiar agendas polÃticas ou comerciais especÃficas”.
“É, assim, possÃvel definir os participantes portugueses como utilizadores de Internet bastante atentivos, que estão conscientes da dimensão e abrangência das ‘fake news’, mas que não permitem que a sua confiança seja abalada, enquanto permanecem atentos à s caracterÃsticas do fenómeno”, rematam.
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