Lisboa, 17 mai 2019 (Lusa) — O organismo que investiga acidentes alerta as companhias aéreas e as entidades aeronáuticas para os riscos das descolagens com potência reduzida na principal pista do Aeroporto de Lisboa, podendo ter “graves consequências” em caso de avaria de motor.
A “preocupação” é manifestada numa nota informativa do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e Acidentes Ferroviários (GPIAAF), a que a agência Lusa teve hoje acesso, sobre um “incidente grave” com um A320 da easyJet, que, na noite de 24 de abril, descolou da pista 21 (na direção da Segunda Circular — sentido Norte-Sul), abaixo da altitude estipulada.
O GPIAAF delegou a investigação na sua congénere do Reino Unido (AAIB), por esta ter muito trabalho desenvolvido naquele tipo de incidentes, e por ter recentemente emitido diversas recomendações sobre o assunto, mas com base na informação que recolheu numa fase preliminar, desde já alerta a ANA — Aeroportos de Portugal, gestora do aeroporto, e a Autoridade Nacional da Aviação Civil para avaliarem se existe a necessidade de o risco na operação da pista 21 ser reavaliado.
“Dada a crescente tendência do número de relatos de descolagens marginais e os estudos atualmente disponÃveis sobre esta matéria, a Autoridade Nacional de Aviação Civil e a direção do Aeroporto de Lisboa poderão, enquanto as recomendações já emitidas pelo AAIB à s autoridades internacionais não são implementadas, considerar avaliar se existe a necessidade de revisão da avaliação de riscos para a operação da pista 21”, frisa o GPIAAF.
Aos operadores aéreos (companhias aéreas), este organismo destaca a “extensa preocupação da indústria em relação aos procedimentos de descolagem com potência reduzida”.
Nesse sentido, o GPIAAF “considera apropriado manifestar a sua preocupação formalmente aos operadores aéreos do Aeroporto Humberto Delgado, bem como à s entidades aeronáuticas nacionais relevantes, para os riscos envolvidos na operação de descolagem com potência reduzida na pista 21”.
No incidente em causa, a descolagem estava inicialmente planeada para acontecer na pista 21 do ponto de intersecção TWY U5 com 2.410 metros disponÃveis, mas “por razões ainda a serem determinadas”, a tripulação reprogramou o computador de voo para a totalidade da extensão da pista, com os seus 3.805 metros de comprimento.
Esta seleção, segundo o GPIAAF, “foi realizada sem cruzar os dados das cartas” com a nova distância de pista programada para descolagem, tendo o A320, com 181 pessoas a bordo, descolado do Aeroporto de Lisboa, com destino a Londres, usando o TWY U5, conforme inicialmente previsto, embora com os dados introduzidos referentes à pista completa.
“Apesar da ausência de obstáculos na zona de subida da pista 21, a natureza do espaço envolvente, com a conhecida densidade urbana no rumo da descolagem, é uma preocupação séria no caso da falha de motor em momento crÃtico durante a descolagem com potência reduzida, podendo ter graves consequências”, sublinham os investigadores do GPIAAF.
O piloto estava na função de comandante há poucos meses e este era o seu segundo voo no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa. Ainda assim, “declarou ter percecionado que a corrida de descolagem foi mais longa do que esperava, no entanto, sem selecionar a potência máxima de descolagem e borrego”.
A redução de potência dos motores à descolagem abaixo do valor máximo possÃvel é projetada para minimizar a temperatura na turbina do motor e, consequentemente, o desgaste do motor.
Esta redução de potência “não pode nunca comprometer os parâmetros de performance de certificação da aeronave para operar em determinado aeroporto”, sublinha a nota informativa.
O GPIAAF confirmou à Lusa que, apesar de ter a perceção de que nem todas estas ocorrências são reportadas, incidentes deste tipo já aconteceram mais vezes no Aeroporto de Lisboa, o último dos quais em 7 de maio, posterior àquele a que a nota informativa se refere.
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