
Lisboa, 09 mar (Lusa) — A Awaytomars apresentou hoje na ModaLisboa uma coleção feita a partir de peças de roupa descartadas por pessoas de todo o mundo, chamando a atenção e dando uma solução para o problema do excesso de produção e consumo.
A Awaytomars funciona como uma comunidade, aberta a pessoas em todo o mundo, que de seis em seis meses contribuem com ideias para a criação de coleções. Na que foi hoje apresentada na ModaLisboa, para o próximo outono/inverno, “o conceito foi bem diferente do habitual”.
“Em vez de pedir aos membros da comunidade para enviarem ideias, pedimos para enviarem roupas que não usassem. Foi daà que começou a coleção”, explicou Alfredo Orobio, um dos designers de moda da marca, à Lusa no final do desfile, no Pavilhão Carlos Lopes, contando que receberam “roupa do mundo inteiro: dos Estados Unidos, do Brasil, do Japão ou do Reino Unido”.
As roupas recebidas, além de “muitas”, foram “variadas”, o que, segundo MarÃlia Biazi, que faz dupla com Alfredo Orobio, “foi bom”, porque permitiu que pudessem “fazer uma curadoria e perceber o que era bom para colocar no desfile e o que não era”.
Algumas peças “eram perfeitas, ainda com etiqueta de preço”. “Não tinham sido usadas e foram descartadas. Quisemos mostrar hoje um problema, mais do que uma coleção de moda”, disse Alfredo Orobio.
No meio de todas essas peças havia “coisas provocadoras”, como t-shirts da União Europeia e bonés do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “E quisemos incorporar essa provocação na passerelle”, referiu o designer de moda.
Essas peças não podiam ter chegado “num momento mais perfeito”. Os dois vivem em Londres e na próxima semana acontece, para Alfredo, “a votação mais importante para o ‘Brexit'”.
“Eu sou descendente de portugueses e espanhóis, a MarÃlia de italianos, somos brasileiros, moramos em Londres. A Awaytomars é europeia, nascemos nesse conceito e não faz o mÃnimo sentido vivermos neste limbo, não sei o que vai acontecer amanhã”, afirmou o designer de moda.
Os dois pisaram a passerelle envergando t-shirts nas quais o sÃmbolo da União Europeia aparecia apenas pela metade. “Foi uma provocação e a ideia de trazer os bonés de Donald Trump [para o desfile] também foi uma provocação”, assumiu Alfredo.
Com o desfile de hoje quiseram sobretudo alertar para o “excesso de consumo, descarte imediato e desvalorização do produto” da geração a que pertencem.
“O que trouxemos hoje para a passerelle foram produtos que foram descartados, aos quais demos vida e que colocámos no lugar de maior prestÃgio da moda que é a passerelle”, reforçou.
Ao longo dos últimos seis meses, enquanto preparavam a coleção, os dois foram “visitar os locais onde estas roupas vão parar depois de descartadas”. “E ficámos impressionados. É uma quantidade enorme de matéria-prima que pode ser usada e está ali jogada”, partilhou.
Alfredo Orobio lembra a “sensação do momento” Marie Kondo [autora de livros e com um programa de televisão] “que prega a limpeza dos armários e a arrumação”. “Ela diz que se [uma peça de roupa] não te dá felicidade deitas fora, mas ela não dá solução para aquele problema”, lembrou, salientando que isso é “o contrário” do que a Awaytomars prega e quer como marca de moda.
Para Alfredo e MarÃlia “o ‘upcycling’ [reutilização criativa] é a maneira mais eficaz de se ser sustentável hoje em dia”. “Produzimos tanto que precisamos de dar um meio e um fim para isto”, alertou MarÃlia.
Os dois lembraram que há algumas gerações não era assim. “As nossas avós quando havia uma t-shirt ou uma meia com buracos remendavam, de um vestido faziam uma saia e uma blusa, tinham sempre solução para os problemas. A nossa geração não tem solução, só descartamos”, afirmaram.
Nas próximas coleções, pretendem manter o recurso a peças de roupa descartadas. “Foi uma experiência criativa muito interessante, um ponto de partida muito rico, mostrar à s pessoas que há vida além da vida da roupa, do que se considera que a roupa vive e com certeza que isso vai continuar dentro das coleções”, adiantou Alfredo.
Hoje, na ModaLisboa foram também apresentadas as coleções para a próxima estação fria de Constança Entrudo, João Magalhães, Imauve, David Ferreira, Carlos Gil e Kolovrat. O dia termina com as propostas de LuÃs Carvalho e da Ernest W. Baker.
A 52.ª edição da ModaLisboa termina no domingo.
JRS // JH
Lusa/fim



