
Lisboa, 27 jan (Lusa) — Vinte anos após o reconhecimento do mirandês como segunda lÃngua oficial em Portugal, em Lisboa tem “bastante” procura, apesar da falta de apoios de que se queixam os seus divulgadores.
Numa pequena sala da Casa de Trás-os-Montes em Lisboa, funciona à segunda-feira e em horário pós-laboral uma aula de lÃngua mirandesa, onde até um aluno francês de Erasmus já se inscreveu para aprender esta lÃngua falada no nordeste transmontano.
Antes de dar inÃcio a mais uma aula, António Cangueiro, professor de mirandês, falou à Lusa sobre este seu percurso, que começou ainda com o escritor, professor universitário, estudioso e divulgador da lÃngua mirandesa Amadeu Ferreira, que instituiu o curso em Lisboa há dez anos.
“O primeiro ano ainda foi com Amadeu Ferreira, ele vinha dar literatura e eu e outro amigo, Francisco Domingues, vÃnhamos dar as classes”, lembrou.
A funcionar há dois anos na Casa de Trás-os-Montes, as aulas de mirandês são atualmente lecionadas em conjunto com outra professora, Adelaide Monteiro, e “a procura tem sido bastante”, assegura.
“A prova está aqui nos cursos da Casa de Trás-os-Montes. No ano passado findaram o curso 15 alunos, um deles era de origem francesa, que veio fazer Erasmus e teve interesse, matriculou-se e frequentou o curso”, contou, assegurando que “há muito interesse desde que a lÃngua foi aprovada como lÃngua oficial”.
No entanto, faltam apoios do Estado: “a lÃngua mirandesa não tem qualquer apoio oficial”, alertou.
“Eu venho para aqui a minhas despesas, a outra amiga vem cá por iniciativa própria, a Casa de Trás-os-Montes abre-nos a casa para darmos aqui o curso, mas o esforço é nosso, é pessoal, a nÃvel do Estado não tem havido apoio nenhum para este curso, e é pena”, lamentou António Cangueiro, apoiado por alunos, de todas as idades, que iam chegando e se juntavam à conversa.
Recorda também que no ano passado, alguns representantes do Parlamento Europeu estiveram em Miranda do Douro a fazer uma auscultação à população e à s escolas, “para que o Estado assinasse a Carta Europeia das LÃnguas Minoritárias, porque se assinar essa carta compromete-se com alguma coisa, algo que não tem feito e continua a não fazer”.
Para este professor é difÃcil compreender como é que o Estado aprova uma lÃngua e depois não cria normas nem apoios financeiros anuais para a lÃngua se poder divulgar.
Apenas em Miranda do Douro existe um professor no ensino oficial, que “é colocado todos os anos e mesmo assim é uma dificuldade enorme para ele ser colocado”.
Em Lisboa, o custo das aulas é cinco euros, um valor “simbólico” que mais não é do que uma “ajuda para pagar a luz”, refere.
A maior parte dos alunos ali inscritos mora na zona de Lisboa e inscreve-se sobretudo por curiosidade, mas também já houve alunos transmontanos e alentejanos, quase todos com formação superior, descreve António Cangueiro, traçando um perfil dos alunos.
Leonardo Antão é um desses alunos, e o mais antigo em Lisboa, tendo começado a aprender nos primeiros cursos ministrados por Amadeu Ferreira.
“Procuro vir todos os anos, pelo amor que tenho à lÃngua mirandesa, porque a aprendi em pequenino, ao colo da minha mãe, que falava só lÃngua mirandesa e que era, por ironia do destino, analfabeta, mas a lÃngua dela era o mirandês”.
No extremo oposto, Gerson Costa é o aluno mais recente do curso. Inscrito desde dezembro do ano passado, este jovem, dono de uma empresa de tradução, descobriu casualmente, através da página do Facebook, que a Casa de Trás-os-Montes lecionava aulas de mirandês e que esta era a segunda lÃngua oficial portuguesa.
Assegura que não foi por motivos profissionais, apenas por curiosidade pessoal, que se inscreveu, porque, já que está no campo das lÃnguas, achou que “ficava bem, pelo menos, entender aquilo que é dito na outra lÃngua portuguesa do paÃs”.
E é nessa mesma lógica, que Gerson Costa tem dificuldade em entender como é que uma lÃngua oficial, não o é na prática.
“Começa a haver literatura, as pessoas continuam a falar mirandês em casa, os mais velhos falam, mas para isso não era preciso ser uma lÃngua oficial, não era preciso regulamentar. Para ser uma lÃngua oficial, precisa de ser falada na Câmara Municipal, precisa de ser falada nas assembleias de Junta de Freguesia, precisa de ser falada no tribunal da cidade, e isso falta”.
O presidente da Casa de Trás-os-Montes, Hirondino IsaÃas, mostra-se empenhado na divulgação do mirandês, razão por que assinou um protocolo com a Associação de LÃngua Mirandesa, no sentido de criar este curso.
No entanto, queixa-se da falta que faz “o poder central dar o passo definitivo, que é o Ministério da Cultura aprovar uma pequena verba para a divulgação ao nÃvel das escolas” em outros concelhos do paÃs, como acontece em Miranda do Douro.
A lÃngua mirandesa é uma lÃngua oficial de Portugal desde 29 de janeiro de 1999, data em que foi publicada em Diário da República a lei que reconheceu oficialmente os direitos linguÃsticos da comunidade mirandesa.
AL // TDI
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