
Redação, 25 jan (Lusa) — Um novo estudo publicado no mais recente número da revista cientÃfica Science demonstrou que, durante a campanha eleitoral para as presidenciais nos Estados Unidos, em 2016, 0,1% de utilizadores do Twitter foram responsáveis por partilhar 80% de conteúdos falsos.
O estudo, intitulado “NotÃcias falsas no Twitter durante a eleição presidencial dos EUA em 2016” e realizado por investigadores das universidades norte-americanas de Northeastern, Harvard e Nova Iorque, examinou “a exposição e a partilha de notÃcias falsas por eleitores registados no Twitter e descobriu que o nÃvel de interação com fontes de notÃcias falsas foi extremamente concentrado”.
“Apenas 1% de indivÃduos foram responsáveis por 80% das exposições a fontes de notÃcias falsas e 0,1% estiveram por trás de quase 80% de fontes de notÃcias falsas partilhadas. Os indivÃduos mais prováveis de interagir com fontes de notÃcias falsas eram conservadores, mais velhos e altamente ligados a notÃcias polÃticas”, pode ler-se no resumo do artigo publicado na Science com data de hoje.
A investigação definiu um produtor de notÃcias falsas “como aquele que tem a aparência de notÃcias legitimamente produzidas, mas que não contém as normas e os processos editoriais dos meios de comunicação para garantir a precisão e a credibilidade da informação”.
A partir daqui e depois de listadas centenas de ‘sites’ classificados por diferentes graus de profundidade de falsidades partilhadas, foram recolhidas mensagens de Twitter enviadas por 16.442 contas ativas durante a temporada eleitoral de 2016 (entre 01 de agosto e 06 de dezembro desse ano), das quais foram obtidas listas de seguidores. O conjunto obtido foi então comparado a uma amostra de eleitores nos Estados Unidas reunida pelo centro de investigação Pew.
A conclusão do estudo apontou para que 5% das exposições de utilizadores daquela rede social a ‘sites’ de polÃtica tenha sido a fontes de notÃcias falsas.
“No entanto, estes números agregados mascaram o facto de o conteúdo de fontes de notÃcias falsas estar altamente concentrado, entre um pequeno número de ‘sites’ e entre um pequeno número de membros da amostra”, pode ler-se no documento.
As distorções agravavam-se com o facto de estes 0,1% de utilizadores responsáveis por 80% de partilhas de ‘sites’ de notÃcias falsas serem mais ativos no Twitter do que a média: partilhavam mensagens 71 vezes por dia enquanto o membro médio da amostra só ‘tuitava’ 0,1 vezes por dia.
O estudo concluiu ainda que as contas rotuladas como pertencendo a um utilizador de esquerda eram menos prováveis de partilhar conteúdos de origem duvidosa (apenas 5%), enquanto à direita a probabilidade era de 11 e 21% entre os utilizadores de direita e de extrema-direita, respetivamente.
Embora salientem que os resultados são apenas aplicáveis aos comportamentos no Twitter e não replicáveis noutras redes sociais, os investigadores abordam possÃveis soluções para este problema, sugerindo que as plataformas desencorajem os utilizadores de seguir ou partilhar conteúdo de fontes referenciadas como estando na origem de notÃcias falsas e desinformação, podendo também “adotar polÃticas que desincentivem as publicações frequentes”, indo ao encontro do que, por exemplo, o Whatsapp já implementou ao reduzir a possibilidade de enviar mensagens em massa.
As ‘fake news’, comummente conhecidas por notÃcias falsas, desinformação ou informação propositadamente falsificada com fins polÃticos ou outros, ganharam importância nas presidenciais dos EUA que elegeram Donald Trump, no referendo sobre o ‘Brexit’ no Reino Unido e nas presidenciais no Brasil, ganhas pelo candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro.
O Parlamento Europeu quer tentar travar este fenómeno nas europeias de maio e, em 25 de outubro de 2018, aprovou uma resolução na qual defende medidas para reforçar a proteção dos dados pessoais nas redes sociais e combater a manipulação das eleições, após o escândalo do abuso de dados pessoais de milhões de cidadãos europeus.
Em 21 de fevereiro, vai realizar-se, em Lisboa, uma conferência organizada pelas duas agências noticiosas de Portugal e Espanha, Lusa e Efe, com o tÃtulo “O Combate à s Fake News – Uma questão democrática”.
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