
Fundão, Castelo Branco, 13 dez (Lusa) — À chegada ao trabalho, Gebru e Hadush cumprimentam os colegas com um “Bom Dia” que representa uma verdadeira conquista. Há poucos meses estavam no navio ‘Aquarius’ e desconheciam o futuro. Hoje, estão no Fundão e já têm emprego.
Gebru Mehari e Hadush Tsegay, 28 e 26 anos, naturais da Eritreia, são dois dos 19 migrantes que em julho foram resgatados pelo navio humanitário ‘Aquarius’ e que foram depois acolhidos, em Portugal, pela Câmara do Fundão.
Chegaram a esta cidade do distrito de Castelo Branco no dia 25 de setembro e quatro deles já estão a ser inseridos no mercado de trabalho. Dois estão numa empresa agrÃcola, um numa fábrica de confeções e outro numa empresa de eletricidade.
Não veem o trabalho como uma obrigação, mas como uma oportunidade para começarem a construir o futuro.
“Sem trabalho não se vive”, resume Abiel Madgu, 22 anos, natural da Eritreia e que está há quase um mês a trabalhar na empresa de confeções Twintex.
Abiel não fala inglês nem português. A conversa com a agência Lusa é traduzida por Daniel Melake, um outro eritreu que chegou a Portugal há cerca de dois anos e que foi o tradutor do grupo, durante o primeiro mês.
Na fábrica Abiel não conta com a presença do tradutor. A dificuldade clara é ultrapassada com empenho e recurso aos gestos.
Yolanda Magaz é quem tem ensinado Abiel a executar as tarefas. Ela exemplifica, ele repete. Se não se entendem à primeira, a expressão facilmente indica que é preciso repetir o processo.
“Tem corrido bem, ele é muito empenhado e muito preocupado em aprender”, refere esta responsável, enquanto Abiel se mantém ocupado a passar a ferro peças de tecido que irão integrar um casaco.
Às perguntas que lhe vão sendo feitas numa mistura de inglês e português, Abiel responde balançando a cabeça em sentido positivo. Diz que sim, que gosta do trabalho e que está feliz.
Igualmente satisfeitos estão os proprietários da Twintex. Se a avaliação positiva se mantiver, Abiel poderá passar desta fase de experiência (devidamente remunerada) para um contrato de mais tempo.
A empresa, cujo grupo integra cerca de 420 trabalhadores e que exporta a totalidade da produção, já emprega pessoas de outras nacionalidades.
Abiel foi integrado não por ser “refugiado”, mas no âmbito dessa estratégia que procura soluções para fazer face à s carências de mão-de-obra, como explicou Mico Mineiro, diretor de operações da fábrica.
“Por uma feliz coincidência, soubemos que também temos um dos refugiados do ‘Aquarius’, que por sinal está a ter uma integração muito positiva na empresa. Os responsáveis estão contentes, a única barreira com que até agora nos temos debatido é de facto a da comunicação, mas como há boa vontade das duas partes vai tudo correr bem”, referiu Mico Mineiro, admitindo vir a integrar outros migrantes.
O otimismo é partilhado por Paulo Ribeiro, da Unitom Farming, empresa agrÃcola e frutÃcola que tem cerca de 120 hectares de cerejeiras, pessegueiros, olival e mirtilos e que também tem recorrido a imigrantes para encontrar braços que trabalhem o campo.
Hadush e Gebru são os mais recentes elementos da equipa. Por estes dias, estão empenhados na poda das cerejeiras e vão comunicando numa mistura de idiomas e movimentos.
Uma das palavras que Gebru já sabe dizer em português é “cuidado”, isto porque no primeiro dia de trabalho quase se cortou. Cerca de um mês depois repete os gestos que Aires Proença, o encarregado da equipa, lhe ensina. Sem hesitar, corta os ramos com uma expressão de felicidade, que é acompanhada pelo sorriso de Hadush.
Esta é uma oportunidade que nenhum quer perder.
E se correr bem, ficam. Quando a poda estiver concluÃda, podem passar para o olival, para as estufas e para a colheita, sempre tratados da mesma forma que os restantes trabalhadores.
“Quando fomos contactados pela Câmara Municipal do Fundão em relação a este assunto demos toda a nossa abertura para acolher alguns desses ‘refugiados’, sempre na condição de se adaptarem com alguma rapidez na equipa. Isso aconteceu, felizmente para nós e para eles”, apontou Paulo Ribeiro.
Testemunhos que aumentam a esperança de que todos os elementos do grupo possam ser inseridos a curto prazo no mercado de trabalho.
Além dos quatro que já estão integrados, a Câmara do Fundão tem em fase adiantada outros processos de inserção laboral, um passo que começou a ser dado mais cedo do que o inicialmente previsto, dado a boa integração e acolhimento que se tem registado.
“A questão do trabalho é essencial. As pessoas não podem estar 18 meses [duração do programa] paradas e no fim encontrarem-se sem nada e completamente desamparadas. É preciso encontrar caminhos e isso é muito importante para a autoestima deles e também para o processo de autonomização, porque lhes permite construir um projeto de vida”, explicou à agência Lusa Paula Pio, coordenadora do Plano de Integração do Fundão.
O grupo que está no Fundão é constituÃdo por 17 homens e duas mulheres provenientes da Eritreia (14), Nigéria (três), Iémen (um) e Sudão (um). Fugiram à guerra, à insegurança e à fome. Não se conheciam, mas todos têm em comum uma vida marcada pelo terror, pelo medo, pela violência, pela fome e pela sede.
Entre eles há um antigo autarca que sobreviveu a vários atentados e que mantém alojadas no corpo balas que o atingiram. Há um professor que tinha de dar aulas de dia e ser sentinela à noite, sem descansar. Há quem tenha sido feito prisioneiro durante a fuga, há quem tenha sido agredido e visto outras pessoas serem torturadas, assinadas, violadas.
Vivem agora no antigo Seminário do Fundão, paredes meias com as memórias e com a esperança, porque, como dizem alguns deles, “nada pode ser pior do que já foi”.
CYC // SSS
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