
Arganil, Coimbra, 14 abr (Lusa) – A comunidade estrangeira afetada pelos incêndios de outubro de 2017 está com dificuldades em receber apoio para recuperar as casas. Porém, afirmam que querem continuar a viver na região, onde eram cada vez mais.
No interior da região Centro, crescia a bom ritmo uma comunidade de estrangeiros que encontrou nos distritos de Coimbra, Viseu e Guarda um refúgio longe das cidades. Reabilitaram quintas e construÃram casas, muitas vezes isoladas, no meio das montanhas e vales.
Hoje, procuram refazer as suas vidas e reconstruir as casas, mas alguns encontram pelo caminho dificuldades em conseguir um apoio do Estado.
O inglês Maurice Watkins ainda não sabe se vai ter apoio ou não para reconstruir a casa que tinha à beira do rio Alva, construÃda com as suas próprias mãos aos longo dos 30 anos que já leva a viver em Portugal.
Por entre os escombros da casa, Maurice Watkins lamenta tudo o que perdeu.
“Isto era um paraÃso”, sublinha o inglês de 57 anos, que fugiu com as roupas que tinha, além do computador e da carrinha.
Para trás, ficaram diários, fotografias, animais, a sua horta, painéis solares, ferramentas de trabalho, um trator. “Tudo”, resume Maurice, que quando chegou à quele local perto de Vila Cova de Alva, há 27 anos, só tinha uma camioneta, uma enxada e uma serra.
“Eles dizem que me vão ajudar a fazer a casa, mas ainda não recebi nada, nem dinheiro para ajudar a comprar ferramentas. Seis meses e nada”, diz em português, criticando as informações que nunca chegam.
Maurice diz que está “traumatizado” com o que aconteceu a 15 de outubro e que, a cada dia, custa mais refazer a vida.
“Eu quero ficar, mas custa muito. A minha cabeça dá voltas. Tinha tudo e agora não tenho nada. Custa muito, mas tenho de continuar e gostava de ficar aqui. Quero ficar aqui”, vinca.
Tina Sas e o marido trocaram a Bélgica por Portugal há sete anos e há quatro que estão em Sandomil, aldeia no concelho de Seia, por onde também passa o rio Alva.
ConstruÃram uma casa de madeira e viviam “sossegadinhos, sem patrão e com calma”, com os seus dois filhos, William e Mira, de oito e cinco anos, retirando o rendimento de trabalhos a partir da internet – Tina é tradutora e o marido designer gráfico.
Quando o fogo surgiu, a 15 de outubro, fugiram de casa com mochilas feitas com alguma roupa, computadores e uns brinquedos para as crianças.
Acreditavam que o fogo não destruÃsse a casa. “Foi tudo embora, toda a nossa vida”, disse à agência Lusa Tina Sas.
Depois do incêndio, a famÃlia ainda pensou em ir embora e voltar para a Bélgica. Sem apoios, foram os locais que a convenceram a ficar.
“As pessoas disseram-me: ‘Não vão embora. Gosto tantos de vocês, da vossa famÃlia e vivem aqui tão sossegadinhos’. E nós pensámos: ‘Ok, vamos tentar'”, contou.
A avó de uma colega da sua filha no jardim-de-infância disse que tinha uma casa há dez anos desocupada, na aldeia vizinha de Corgas.
“Ofereceu de forma grátis a casa. É a maior sorte que nós temos. Ofereceu uma casa para vivermos sem perguntar por dinheiro”, enaltece Tina, que, passados seis meses, não quer voltar ao terreno onde viviam – “faz-me muito mal sempre que volto lá”.
Já passaram quatro meses desde que foram viver para Corgas e, assegura, voltaram a ser felizes.
Lynn Mylou, de 35 anos, mudou-se de Amesterdão para a pequena aldeia da Cerdeira, em Arganil, onde encontrou uma comunidade que partilhava das suas ideias – um estilo de vida autossuficiente e ecologicamente consciente.
Criou uma casa de madeira e começou a desenvolver oficinas de permacultura.
Já recebeu o dinheiro dos apoios na agricultura, mas ainda está à espera de saber se terá apoio para a reconstrução da casa – contabiliza um prejuÃzo de 50 mil euros.
Apesar das dificuldades e burocracia que tem encontrado no terreno, Lynn prefere falar do futuro e das várias ideias que tem.
Quer criar uma residência artÃstica, um espaço de alojamento local e, entretanto, já comprou um terreno de cinco hectares num vale.
“Estamos a falar de planos de reflorestação e de autossuficiência e de como realocar a produção para estas áreas. É importante atrair pessoas jovens para zonas rurais e trabalhar a terra com a natureza, em vez de contra”, sublinha Lynn.
Os pilares da sua nova vida longe da confusão de Amesterdão já estavam cimentados, mas, por causa do incêndio vai ter de voltar a reerguê-los.
No entanto, isso não demove a holandesa de 35 anos.
“Os incêndios trouxeram a oportunidade para crescermos. Tem sido traumático, por um lado, mas também trouxe novas ligações. Foi um ‘reset’ para podermos olhar para novas ideias”, resumiu.
JYGA // SSS
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