
Lobito, Angola, 06 mar (Lusa) – A primeira carga de minério exportada pela República Democrática do Congo (RDCongo) através do Caminho de Ferro de Benguela após 34 anos de paralisação nesta ligação, desde o leste de Angola, chega na quarta-feira ao porto do Lobito.
A informação foi confirmada hoje à agência Lusa por fonte do Caminho de Ferro de Benguela (CFB), dando conta que a carga, que partiu na segunda-feira da estação do Luau, provÃncia angolana do Moxico, no leste, corresponde a 1.000 toneladas de manganês, que chegaram, também pela linha ferroviária, do paÃs vizinho, em 25 vagões com 50 contentores.
De acordo com informação do Ministério dos Transportes angolano, o minério, que está a ser exportado pela Sociedade Comercial de Kissengue Manganês, da RDCongo, chegará ao porto do Lobito – de onde será exportada por via marÃtima – por intermédio do CFB, nos termos de um acordo de cooperação rubricado em 2017 entre aquela empresa pública angolana e a Sociedade Nacional dos Caminhos de Ferro do Congo (SNCC).
Na prática, trata-se do reinÃcio do centenário tráfego internacional no Caminho de Ferro de Benguela, iniciado no perÃodo colonial português, com a construção da linha, mas que foi suspenso em 1984, devido à guerra civil em Angola, que só terminou em 2002.
Desde 01 de maio de 1931 que a linha do CFB está ligada à dos Caminhos de Ferro do Baixo Congo, sobre a ponte do rio Dilolo, para dar resposta à necessidade congolesa de aceder a um porto, neste caso no Lobito, Angola, para exportar por via marÃtima o minério extraÃdo no interior do paÃs.
Em 1974, no fim do perÃodo colonial português, o tráfego internacional já era responsável por 90% das receitas do CFB, com uma capacidade anual de transporte de 10 milhões de toneladas.
A reabilitação da rede ferroviária angolana, destruÃda pela guerra civil, custou, entre 2005 e 2015, mais de três mil milhões de euros, conforme anunciou a 14 de fevereiro de 2015 o ministro dos Transportes de Angola, Augusto da Silva Tomás.
O ministro falava precisamente no Luau, onde naquela data foi inaugurado o troço final do Caminho de Ferro de Benguela na provÃncia do Moxico, representando o regresso, mais três décadas depois, da ligação de comboio entre o Atlântico (Lobito) e o interior de Angola, num percurso de 1.344 quilómetros.
“Muitas vezes, e nem sempre de boa-fé, alguns perguntam onde é que vai o nosso dinheiro. Pois bem, a resposta está aÃ. Parte da reposta está aqui no Luau, na extensão do Caminho de Ferro de Benguela”, ironizou Augusto da Silva Tomás.
A reabilitação das três linhas nacionais edificadas durante o perÃodo colonial – além do CFB também o Caminho de Ferro de Luanda e o Caminho de Ferro de Moçâmedes -, envolveu um investimento público de 3,5 mil milhões de dólares (três mil milhões de euros) em 2.612 quilómetros de rede e na construção de raiz de 151 estações ferroviárias.
Em concreto, só a reabilitação da linha do CFB custou quase 1,9 mil milhões de dólares, cruzando quatro provÃncias angolanas e uma área com sete milhões de habitantes.
O sistema ferroviário angolano está alicerçado nos portos de Luanda, Lobito e Namibe, criando desta forma uma rede intermodal para servir também o transporte de mercadorias.
Toda a rede ferroviária nacional, reabilitada sobretudo por empresas chinesas, foi utilizada para a passagem de uma linha própria de fibra ótica, tendo sido ainda adquiridas 42 locomotivas, 248 carruagens de várias tipologias e 263 vagões.
Em 2015, na cerimónia no Luau, em que foi enfatizado o “dia histórico” do regresso do comboio, além do Presidente angolano, então José Eduardo dos Santos, marcaram presença igualmente os chefes de Estado da República Democrática do Congo, Joseph Kabila, e da Zâmbia, Edgar Chagwa Lungu.
Os dois paÃses, que fazem fronteira nesta região com Angola, têm na reabilitada ligação ferroviária uma forma de exportar por via marÃtima – através do CFB e do porto do Lobito – os minérios extraÃdos nas regiões de Katanga (RDCongo) e Copperbelt (Zâmbia), com a interligação futura das três redes ferroviárias.
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