
Santiago do Cacém, Setúbal, 16 dez (Lusa) — As memórias de 16 atores com deficiência mental ganham nova vida em palco, numa peça de teatro criada em conjunto durante este ano, uma coprodução da Crinabel, em Lisboa, e da Cercisiago, em Santiago do Cacém.
A azáfama nos bastidores do Auditório Municipal António Chainho, em Santiago do Cacém, no distrito de Setúbal, é notória durante os minutos que antecedem o ensaio geral da peça “De Olhos Fechados”, uma criação original conjunta dos elementos que compõem os elencos do projeto Crinabel Teatro e da Arca dos Sonhos, da Cercisiago.
É o último ensaio antes da estreia, realizada esta semana. O cenário está pronto, alguns atores preparam-se para entrar em cena, outros colocam-se nas posições iniciais em palco, tiram-se as últimas dúvidas com o encenador, faz-se silêncio, a sala escurece e sobressaem focos de luz que incidem nos espaços onde, momentos depois, começa a viagem pelas memórias dos atores.
“O espetáculo basicamente é uma recolha de memórias que nós fomos fazendo com os intérpretes, de memórias afetivas e de memórias mais sensoriais e da relação que temos com essa ideia de memória”, explica à agência Lusa, após o ensaio, Marco Paiva, coordenador artÃstico do projeto Crinabel Teatro.
Brincadeiras da infância, momentos românticos, dança e também peças de teatro que já interpretaram no passado são algumas das memórias que revelam ao público em palco ao longo de 40 minutos.
As contribuições de cada um para o processo criativo não se medem, faz questão de dizer Marco Paiva, que considera “tão importante uma reflexão mais profunda sobre um texto ou sobre uma ideia como à s vezes um movimento, que é muito simples, mas pode ser a chave para desbloquear uma cena”.
“Cada um, à sua escala, é importante no processo criativo, sem estar a criar barreiras morais ou intelectuais de que é preciso atingir um determinado patamar de compreensão, porque à s vezes a compreensão não é explicável, é uma sensibilidade que acontece perante as coisas”, defende.
Conciliar vontades e diferenças entre todos para concretizar um projeto como este “é um desafio”, reconhece Mónica Duarte, coordenadora da Arca dos Sonhos, que enaltece o “trabalho contÃnuo desenvolvido ao longo do ano” e destaca a importância de iniciativas como esta para a “integração social”.
“É uma oportunidade para subirem a um palco e mostrarem aquilo que sabem fazer de melhor e de partilharem aquilo que fazem connosco e o trabalho que fazem na instituição”, acrescenta, falando sobre os atores, todos adultos, com idades entre os 20 e os 50 anos.
Criado em 1986, o projeto Crinabel Teatro, que habitualmente conta com um elenco de 12 elementos, já fez mais de 50 produções teatrais, umas com processos criativos semelhantes e outras baseadas em obras de dramaturgos.
A Arca dos Sonhos foi criada no ano 2000, com origem num projeto que começou com a preparação de uma peça para a festa de Natal da Cercisiago, e que continuou desde então, com espetáculos a subir ao palco do Auditório Municipal António Chainho, mas também do Centro de Artes de Sines e de escolas da região.
A coprodução, que estreou na quarta-feira passada, em Santiago do Cacém, volta à cena no inÃcio de 2018 na zona do litoral alentejano, havendo também a expectativa de ser apresentada em Lisboa.
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