
Praia, 01 mai 2022 (Lusa) – O Presidente cabo-verdiano, José Maria Neves, admitiu hoje que este 1.º de Maio tem “poucos motivos para celebrar”, devido à crise provocada pela pandemia de covid-19 e pela guerra na Ucrânia, pedindo apoio aos mais necessitados.
Na sua mensagem alusiva ao Dia do Trabalhador, que se assinala hoje, José Maria Neves diz que o Estado, os municÃpios, as organizações não-governamentais, as Igrejas, as empresas e os sindicatos “estão convocados a darem as mãos e socorrerem os que estão a atravessar momentos de grande fragilidade, inclusive de privação de alimentos”.
“Esta sequência de eventos adversos, tanto para os trabalhadores como para Cabo Verde, deve levar-nos a refletir sobre todas as nossas vulnerabilidades e agir de forma a nos tornarmos cada vez mais resilientes, nós e a nossa economia. Urge analisar as nossas fraquezas e agir em conformidade. A todos os nÃveis, há que ter a exata noção da realidade e interiorizar a cultura de poupança, de racionalização e de busca de eficácia no uso dos recursos e na concretização dos objetivos preconizados”, afirmou o Presidente cabo-verdiano.
O arquipélago enfrenta uma profunda crise económica e financeira, decorrente da forte quebra na procura turÃstica – setor que garante 25% do Produto Interno Bruto (PIB) do arquipélago – desde março de 2020, devido à pandemia de covid-19.
Em 2020, o paÃs registou uma recessão económica histórica, equivalente a 14,8% do PIB, seguindo-se um crescimento de 7% em 2021 impulsionado pela retoma da procura turÃstica. Para 2022, devido à s consequências económicas da guerra na Ucrânia, nomeadamente a escalada de preços, o Governo cabo-verdiano baixou a previsão de crescimento de 6% para 4%.
“Em Cabo Verde, quando se fala do Dia do Trabalhador, geralmente imaginamos alegria, comemorações e muita confraternização. Este ano, infelizmente, o 1.º de Maio deixa-nos poucos motivos para celebrar. A realidade hoje vivenciada por muitos trabalhadores não constava das nossas previsões mais pessimistas, de há um par de anos. Uma série bastante improvável e consecutiva de ocorrências incrivelmente desfavoráveis para a nossa economia tiveram um efeito devastador na vida dos nossos trabalhadores e das respetivas famÃlias”, reconheceu José Maria Neves, na mesma mensagem.
Acrescenta que “não é difÃcil de imaginar, principalmente, o sentimento e o estado de carência dos chefes de famÃlia que perderam os seus postos de trabalho e de muitas famÃlias que hoje dispõem de muito pouco ou mesmo nenhum tipo de rendimento”.
“Estamos perante um drama social cujo impacto é mais sentido pela população de rendimento baixo, cuja erosão do poder de compra a torna incapaz de adquirir os produtos de primeira necessidade”, apontou.
“Temos plena consciência de que muitos desses lares, que têm passado por momentos de penúria, são chefiados por mulheres, e que a pobreza tem o rosto feminino. Dedicando-se à agricultura de subsistência, pecuária, venda ambulante, ou outras atividades similares, duramente atingidas por esta crise persistente, estas mulheres, que carregam Cabo Verde à s costas, muito mais do que bons propósitos, clamam por ações concretas, com impacto nas suas vidas e que possam concorrer para a resolução dos seus problemas mais ingentes”, acrescentou.
Face a “uma realidade tão adversa”, José Maria Neves defende uma “sindicalização mais generalizada como a melhor maneira de os trabalhadores se unirem, de forma coletiva e em coligação de esforços”, e que “quanto mais representativos e vigorosos forem os sindicatos, tanto melhor estes conseguirão representar e defender os seus filiados”.
“O momento é o mais apropriado para a preservação e o reforço das instituições sindicais, que estão alicerçadas na história, graças aos contributos decisivos para a afirmação do sindicalismo em Cabo Verde. Pelo contrário, fragilizar o sindicalismo é fragilizar o trabalhador. Assim, deixo um veemente apelo para que, de forma serena, com capacidade de diálogo e equilÃbrio possam ser encontrados os melhores caminhos de convergência, que dignifiquem e reforcem os sindicatos, que são pilares do Estado de Direito Democrático”, acrescentou.
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